Quarta-feira , 11 de Dezembro de 2019

MÍDIA CENTER

Assembleia lança livro na Feira Literária de Mucugê

Publicado em: 13/08/2019 22:12
Setor responsável: Notícia

Divulgação/AgênciaALBA
Elogiado por ninguém menos que Jorge Amado e Rachel de Queiroz, o livro de poemas Auto da Gamela ganha uma segunda edição revista e ampliada, que será lançada pela Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) na Feira Literária de Mucugê (Fligê), na Chapada Diamantina. A obra, que faz parte do projeto ALBA Cultural e foi selecionado pelo Selo Fligê 2019, foi escrita por Carlos Jehovah e Esechias Araújo Lima, o primeiro de Vitória da Conquista e o segundo de Brumado, e teve a primeira edição publicada em 1980. Agora, essa nova versão, muito bem-acabada de 219 páginas, ganha ilustrações de Silvio Jessé. O lançamento acontecerá no dia 18 de agosto (domingo), às 10h, dentro da programação da feira.
Em versos extremamente inspirados, o livro conta o nascimento, a curta e sofredora vida e morte de uma criança nordestina. Sua primeira edição foi lançada em dezenas de estados brasileiros e também na VI Bienal do Livro de Portugal, em Lisboa. “A poesia de Auto me emocionou e comoveu a cada verso prenhe de verdade, de realidade, de vida”, escreveu Jorge Amado, em texto que vai nesta segunda edição do Auto da Gamela. 
Para o autor de Capitães de Areia, Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e seus Dois Maridos, Auto da Gamela é uma das mais importantes obras de nossa literatura, “onde conteúdo e forma atestam uma alta qualidade e realmente servem à causa dos pastores da enxada: ‘a terra é de quem trabalha’”. Jorge Amado contou que leu “imediatamente e apaixonadamente” o livro. “Fui de poema em poema, de verso em verso, exaltado: vocês recriaram, com uma força de miséria e de sertão, a vida e o homem, ‘missa, caixão e mortalha’”. 

Rachel de Queiroz também não se conteve nos elogios. Em carta endereçada aos autores de 1979 e reproduzida nesta segunda edição (inclusive a manuscrita), a autora de Quinze e As três Marias, observou: “Não sou juiz de poesia – jamais ousei  - mas juiz de matéria sertaneja, isso eu sou! Poucas vezes encontrei, fora de Ariano Suassuna, de João Cabral, uma força da terra tão viva e violenta como nesse caderno de verso de vocês, nesse Auto da Gamela”.

Ela descreveu o texto como “duro, triste e muito, muito bonito”. E acrescentou: “A poesia popular flui nele em veia tão autêntica quanto se saísse da boca de um cantador. Cantador daqueles bons, dos antigos, dos que estão se acabando, não desses repentistas de estação de rádio e TV, postos em moda”. Rachel de Queiroz disse não saber o que dirá a crítica sobre o livro que estava prestes a ser lançado, mas ressaltou: “De escritor popular para escritor – perdão! para poeta popular, digo que vocês entenderam, que estão no grande bom caminho, na legítima expressão de uma voz da terra que vem abafada e deturpada por tantas gerações de falso populismo”.

De acordo com escritor e crítico literário Mário Cabral, responsável pelo prefácio da obra, o Auto da Gamela realiza-se naquela formalística medieval, que ficaria famosa com o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e Vida Severina, de João Cabral. “Quando tudo vive sofisticado pela técnica e pela automação, inclusive o verso que chegou ao extremo do concretismo e da antipoesia, surgem dois rapazes de Conquista e Brumado, com um livro, que no meu entender, redescobre o exato sentido da poesia pura”. Para ele, a obra de Carlos Jehovah e Esechias Araújo não se desenvolve à margem da vida, mas é a própria vida que ela reflete e representa, com autenticidade”. 

O Auto da Gamela focaliza a terra e o homem nordestino. “Lá estão o sol, a caatinga, os violeiros, as aparadeiras, os camponeses, as crendices, a maldição dos cercados, os pássaros matinais, as árvores desgalhadas, os meninos barrigudos, a procissão da penitência, as estranhas profecias, as plantas curandeiras, a mulher sofrida, o homem esmagado pela crueza do tempo e pela indiferença da sociedade, a luta, a fome, a sujeira, a miséria, o sertão sem água, duro, seco, estorricado”, escreveu Mário Cabral. 

Carlos Jehovah nasceu em Conquista no dia 7 de novembro de 1944. Publicou seu primeiro trabalho em 1973, intitulado Cicatriz. “É um livro complexo e denuncia a inquietação de um jovem às vezes com revolta, às vezes com ironia satírica e alegre, piedosa e trise”, como se referiu Camillo de Jesus Lima. Em seguida, lançou Quotidiano – Poemas em Voz Alta. O seu terceiro livro, que lhe trouxe fama, foi o Auto da Gamela.

Já  Esechias Araújo Lima nasceu em Brumado em 9 de agosto de 1949. Escreveu a comédia A Manga e a peça dramática o Filho de um carpinteiro. Ao ingressar no Banco do Brasil, em 1971, em Vitória da Conquista, conheceu o poeta dramaturgo Carlos Jehovah. Foi premiado pela Unesco com o poema O mundo em cordel bambo, e pela Academia Brasileira de Letras com o texto Machado de Assis: a fonte que nunca seca.
A Feira Literária de Mucugê teve sua primeira edição em 2016, quando homenageou o médico e escritor Afrânio Peixoto, que se dedicou as histórias da Chapada Diamantina. Em 2017 o tema central foi “Somos paisagens dos sertões em rota de composições”, quando o autor de Sertões, Euclides da Cunha, foi celebrado, como parte das comemorações dos 120 anos de Canudos. No ano passado, o tema foi Literatura e resistência – a vida nos rastros da palavra, prestando homenagem à Conceição Evaristo. Este ano o homenageado será Castro Alves com seu grito ‘Sê livre, és Gigante”.


Compartilhar: