Sexta-feira , 15 de Novembro de 2019

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Sessão especial reverencia memória dos heróis da Revolta dos Búzios

Publicado em: 08/11/2019 19:18
Setor responsável: Notícia

Divulgação/AgênciaALBA
Uma sessão especial, proposta conjuntamente por Fabíola Mansur (PSB) e Jacó Lula da Silva (PT), reverenciou a memória dos mártires da Revolta dos Búzios, na manhã desta sexta-feira (8), no plenário da Assembleia Legislativa da Bahia. Nesta mesma data, há 220 anos, Manoel Faustino, Lucas Dantas, Luís Gonzaga das Virgens e João de Deus, todos negros, foram enforcados e esquartejados na Praça da Piedade, em Salvador, por seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.

 No mês dedicado à Consciência Negra, seus nomes foram ratificados, na cerimônia da Casa, como Heróis da Pátria, evocando a força do movimento – também chamado de Revolta dos Alfaiates e Conjuração Baiana – deflagrado em agosto de 1798, na forma de panfletos que convocavam o “Povo Bahiense” para as suas bandeiras de luta. A sessão foi permeada por apresentações da Banda da Escola Olodum, que acompanhou o cantor e compositor Tonho Matéria ao final, além de leitura dramática de trecho do livro sobre o tema, de autoria do dramaturgo Paulo Neri, editado pelo selo ALBA Cultural.

Quebrando o protocolo, Fabíola Mansur iniciou seu pronunciamento pedindo um minuto de silêncio em memória dos líderes. A deputada trouxe números do IBGE, divulgados no dia anterior, sobre o aumento da desigualdade, com ampliação da extrema pobreza atingindo, sobretudo, os negros e pardos. Ela fez ainda o chamamento dos mais jovens para a luta antirracista, encerrando sua fala com um excerto da canção Milagres do Povo, de Caetano Veloso: “E o povo negro entendeu que o grande vencedor / Se ergue além da dor / Tudo chegou sobrevivente num navio / Quem descobriu o Brasil? / Foi o negro que viu a crueldade bem de frente / E ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente”.

Para o deputado Jacó, a sessão especial “cumpre um papel histórico de evidenciar e viabilizar a história de resistência do povo negro em Salvador, na Bahia e no Brasil”. Ele fez um breve relato histórico sobre o levante emancipacionista baiano do século XVIII, cujos “ideais dos revoltosos incomodaram as elites coloniais e os governantes”. Segundo o petista, “a trama conspirativa desfiada nos ‘papéis sediciosos’ revelavam que não eram poucos os que se tornaram partidários da Liberdade. O boletim chamado de Aviso n° 9, declarava que eram 676 membros”.

Representando o governador Rui Costa no ato, a secretária estadual da Promoção da Igualdade, Fabya Reis, classificou a sessão como histórica, junto com outros eventos do dia, como a caminhada da Praça da Piedade em direção à Câmara Municipal, antiga sede da Cadeia Pública, que fará simbolicamente o trajeto inverso feito pelos mártires. “Essa é uma luta que precisamos estar ombro a ombro e ladeada, para que a gente possa seguir firme, porque o racismo não descansa sequer um minuto”, afirmou. 
“Nós somos a única cidade no mundo em que nomes de algozes e assassinos estão nas ruas, enquanto os nomes de heróis não estão em canto nenhum”, denunciou João Jorge, presidente do Olodum. Ele citou, entre os algozes da Revolta dos Búzios que nomeiam monumentos em Salvador, “Dona Maria I, que dá nome à Estrada da Rainha; Dom João VI, avenida no bairro de Brotas; e Costa Pinto, desembargador da época que tem nome de rua e de avenida”.

O defensor público geral Rafson Ximenes observou que a história oficial sempre definiu os movimentos sociais – como a Revolta dos Búzios e a Revolta dos Malês – de forma pejorativa, denominando como conjuradores ou inconfidentes, “um nome que evocasse traição”. Segundo Ximenes, é preciso ajudar a identificar a realidade que acontece no Brasil desde 1500: “todas as lideranças populares foram criminalizadas, presas ou, pelo menos, acusadas; possivelmente todas as lideranças populares negras chegaram a ser presas”. Ele anunciou que a Defensoria Pública fará um júri simulado de Manoel Faustino, um dos heróis de Búzios, dia 26 de novembro, às 9h, no auditório da Uneb, em Salvador.

Durante a sessão especial, lideranças negras e representantes da luta contra o racismo foram homenageados com uma placa honorífica de azulejo. Também participaram da mesa a deputada Fátima Nunes (PT), presidente da Comissão Especial da Promoção da Igualdade; Zulu Araújo, diretor da Fundação Pedro Calmon, representando a secretária estadual de Cultura, Arany Santana; Gilberto Leal, dirigente da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen); Heloísa Lima, coordenadora de Juventude da Conen; Fábio Nogueira, presidente estadual do Psol; e Magno Lavigne, presidente da União Geral dos Trabalhadores.



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