“Nossos heróis não podem ser esquecidos”. Esse foi o lema da sessão especial pelos 220 anos da Revolta dos Búzios – Caminho da Liberdade, realizada na tarde desta quinta-feira (23) pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia (ALBA). A solenidade, proposta pela deputada Fabíola Mansur (PSB), foi prestigiado por personalidade como João Jorge, presidente do grupo cultural Olodum, Fabya Reis, secretária estadual da Promoção da Igualdade, Julieta Palmeira, titular da Secretaria de Políticas para Mulheres, Zulu Araújo, diretor da Fundação Pedro Calmon, a pedagoga Cátia Melo e a defensora pública Eva Rodrigues.
Fabíola Mansur presidiu a mesa e, em seu discurso, classificou a Conjuração Baiana, como também ficou conhecida a Revolta dos Búzios, como o maior movimento social e político da Bahia, que culminou com o assassinato dos heróis João de Deus, Lucas Dantas, Manoel Faustino e Luiz Gonzaga. “A Revolta dos Búzios foi a primeira forma de comunicação, como diz o livro de Florisvaldo Matos, por lançar avisos, boletins, chamados boletins sediciosos por aqueles déspotas da colônia. Estes boletins, apesar de manuscritos, são considerados os primeiros boletins da imprensa baiana. Os heróis são considerados os primeiros deputados baianos porque lutavam por democracia com espírito republicano e com ideais da revolução francesa. Eles merecem todo o nosso respeito e merecem ser exaltados”, defendeu a socialista.
O ponto alto da solenidade foi o discurso emocionado do presidente do grupo cultural Olodum, João Jorge, que estuda o movimento revolucionário baiano. “A Revolta dos Búzios para o Olodum é apenas uma passagem para o presente e para o futuro. É apenas um rio correndo para o mar. É um leite de rosas. […] 1798 não acabou, cabe a nós terminarmos a revolução”, enfatizou.
“Na revolução de 1798, 667 pessoas participaram do plano, deram seus nomes para um partido, o Partido da Liberdade e Igualdade. Na hora da prisão, aqueles que podiam, pagaram advogados para sair da punição, os senhores de escravos liberaram seus escravos, padres liberaram padres, a maçonaria organizou para liberar a maioria. Quem pagou aquela conta? Os quatro homens negros enforcados. Ainda hoje, pagamos essa conta quando a sociedade baiana de 2018 consegue pensar em ter um governo sem mulher, consegue pensar em ter um governo sem negros”, comparou o professor João Jorge.
Ainda em seu discurso, o dirigente do Olodum defendeu que os heróis da Revolta dos Búzios sejam lembrados nas nomenclaturas de logradouros públicos. “Se nós nos respeitássemos, eles seriam heróis como é Tiradentes, com são os revolucionários da queda da bastilha, mas nós não nos respeitamos. Não fomos capazes de colocar o nome deles em uma estação de metrô, mas temos lá Flamboyant, Trobogy, Estação Detran. Não temos a coragem de fazer da Praça da Piedade um memorial da igualdade e da liberdade”, exemplificou João Jorge, para arrematar o raciocínio: “Os dois algozes da Revolta dos Búzios são nomes de ruas em Salvador: a Estrada da Rainha e Avenida Dom João VI”.
JUSTIÇA
Diretor da Fundação Pedro Calmon, entidade subordinada à Secretaria Estadual da Cultura (Secult), Zulu Araújo destacou o movimento marcado pela luta em defesa da igualdade de gênero, raça, fim da escravidão e busca pela justiça social. Em sua intervenção, Araújo chamou a atenção para o retorno do racismo na sociedade atual. “É algo extremamente grave e que tem sido retomado com uma força nunca vista neste país. A representação política que temos hoje do atraso, da brutalidade, tem se ancorado, se estruturado em torno do racismo. Seja contra quilombolas, contra indígenas, seja contra nós afrodescendentes”, recorda.
A secretária de Promoção da Igualdade, Fabya Reis, representou o governador Rui Costa na sessão especial. Assim como a também secretária Julieta Palmeira, que comanda a Secretaria de Política para Mulheres, Fabya destacou o papel das mulheres na Revolta dos Búzios. “Não podemos criar fatos para dar o colorido que gostaríamos, mas sem dúvida nenhuma há questões sobre a vida destas mulheres que podem nos ensinar muito sobre o processo histórico das lutas das mulheres negras”, disse, defendendo maior visibilidade da atuação feminina no movimento.
Julieta Palmeira, por sua vez, considerou a solenidade um marco para a visibilidade dos heróis da Revolta dos Búzios. “Essa revolta precisa ser mais visibilizada em nosso país, assim como foi a Inconfidência Mineira. A Revolta dos Búzios representou com muito mais força os ideais de igualdade e que bom que nos tenhamos os boletins sediciosos que chamam a tenção da Bahia para a igualdade para a liberdade para escravos e escravas. Somos parte destes ideias de insurgência”, frisou. Para Julieta, o papel da mulher na revolução deve ser mais estudado pelos pesquisadores. “Há uma grande controvérsia na participação feminina na Revolta dos Búzios. Temos que buscar estudar e pesquisar mais sobre a participação das mulheres na revolta, em vez de naturalizarmos cada vez mais que eram mulheres que tinham relações afetivas com os insurgentes. Ou que eram mulheres dos insurgentes. Algumas delas, como diz o Instituto Búzios, foram torturadas para divulgar os nomes dos participantes. Mas se mantiveram firmes diante desta tortura. Quando a pessoa é torturada para delatar e se mantém firme, não tem mais atitude digna e valente do que resistir em nome de ideais”, observou.
A proponente da sessão especial, a deputada Fabíola Mansur, lembrou que tramitam no Legislativo baiano dois projetos que tratam da Revolta dos Búzios. Um, prevê que seja instituído feriado estadual o dia 8 de novembro, uma referência à data em que foram mortos os heróis da revolução. A outra proposta versa sobre a criação da Comenda Liberdade Revolta dos Búzios”, que seria destinada a pessoas que tenham atuado em prol da liberdade, justiça social e da democracia na Bahia. Um terceiro projeto, já aprovado pelos legisladores baianos e sancionado, cria na ALBA o Memorial Revolta dos Búzios em homenagem ao movimento que marcou a luta pela liberdade, fraternidade e igualdade da Bahia.
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