Lançado pela primeira vez em 1961, o livro Porto Calendário, escrito por Osório Alves de Castro, não só foi agraciado com o Prêmio Jabuti um ano depois, como ganhou elogios do mestre Guimarães Rosa, autor de Grandes Sertões Veredas. A obra agora ganha uma nova edição que será lançada pela Assembleia Legislativa em parceria com a Academia de Letras da Bahia (ALB), através da coleção Mestres da Literatura Baiana. O lançamento ocorrerá nesta terça-feira (20), 18h, na sede da ALB, no bairro de Nazaré, em Salvador.
Porto Calendário trata do cenário “barranqueiro” do médio São Francisco. O autor conta a trajetória da família de Pedro Voluntário da Pátria, ex-revolucionário da Guerra do Paraguai, um ABC de astúcias, e usa uma linguagem que se assemelha ao palavreado de Guimarães Rosa em Grandes Sertões, de quem era amigo.
Nascido às margens do Rio Corrente, na bacia do São Francisco, na cidade de Santa Maria da Vitória, Osório Alves de Castro é, nas palavras do também escritor e ensaísta Aleilton Fonseca, “um escritor que, como as correntes dos rios de sua terra, partiu de suas nascentes e percorreu uma trajetória aventurosa entre pedras, leitos, cachoeiras e grotas, na sua vida pessoal literária”.
Além de escritor e militante do Partido Comunista, Osório ganhou a vida como alfaiate, para “honrar sua condição proletária de pai de uma família numerosa”. Com apenas 24 anos, saiu para a vida de imigrante, tendo morado em diversas cidades, desde o Rio de Janeiro, São Paulo, Bauru e Lins até se fixar em Marília, onde exerceu por muitos anos sua profissão, talhando calças e paletós, na Alfaiataria Rex. Anos mais tarde, mudou-se para a capital paulista e, por fim, para Itapecerica da Serra, em São Paulo, onde terminou sua trajetória de vida aos 80 anos.
Para Aleilton Fonseca, o autor de Porto Calendário era um idealista e sonhador, no sentido prático dos termos. “Como as correntes silenciosas, cortava e moldava a vida real e a literária, nas superfícies dos tecidos, e sobre o leito de papel. Com a tesoura tratava de cortes e tecidos de dia, com a pena tecia seus escritos à noite e nas horas vagas, dando curso à memória e à imaginação, para costurar frases, enredos, numa prosa densa, criativa e singular, com um estilo pessoal e admirável”, observou Fonseca, no prefácio da primeira edição.
Assim como Grandes Sertões, Porto Calendário não é uma obra fácil. Exige-se cuidados no acompanhar as narrativas com uso de linguagem cifrada, codificada com termos regionais da região do Rio São Francisco, dos sítios encantados de Santa Maria da Vitória, às margens do Rio Corrente, de Bom Jesus da Lapa, da mundana Barra e dos coronéis que habitavam essa região da Bahia no Pilão Arcado, no Sento Sé, no Remanso e mesmo na Chapada Diamantina, e da gente simples que vivia sob esse mandonismo”, alertou a ensaísta Rosa de Lima.
A situação de conflito é uma constante no livro. De um lado, o povo querendo se libertar das profissões repugnantes e da eterna dependência econômica; de outro, os coronéis, conservadores, querendo deixar tudo como está. “Ao lado da linguagem cheia de rupturas e pontuações não convencionais, segue, como uma corrente caudalosa, a narração dos dramas dos personagens, transformando o romance em um dos mais sérios estudos socioeconômicos escritos no Brasil”, observou o escritor carioca Paulo Rangel, ao prefaciar a segunda edição da obra.
Porto Calendário foi a única obra publicada em vida por Osório Alves de Castro. Ele, que morreu em 1978, deixou no prelo o seu segundo romance, Maria Fecha a Porta prau Boi não te Pegar (publicado pela editora Símbolo no ano em que ele morreu), além do livro Bahiano Tietê (publicação da Empresa Gráfica da Bahia, em 1990) e os inéditos Nhonhô Pedreira e A Cidade do Velho.
A coleção Mestres da Literatura Baiana foi criada, em 2012, pela Assembleia em parceria com a Academia de Letras da Bahia. A coleção contempla todos os gêneros literários e tem como critérios a qualidade da obra e sua importância no contexto cultural da Bahia. Entre os livros já lançados pela coleção, estão A Bahia já Foi Assim, escrito pela folclorista Hildegardes Vianna, Contos e Novelas Reunidos, do escritor Hélio Pólvora, e Antologia Poética, de Affonso Mante.
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