A Assembleia Legislativa analisou nesta terça-feira (12), em audiência pública da Comissão de Agricultura e Política Rural, a Baixa Produtividade e Importação de Mandioca pela Bahia. Os debates foram sugeridos pela deputada Cláudia Oliveira (PSD), que comandou os trabalhos e considerou o produto como base da alimentação de parte expressiva da população brasileira. A mandioca, disse, também é matéria-prima para a agroindústria e a farinha que produz sustenta inúmeras famílias.
Apesar disso, a Bahia registra a menor produtividade do Brasil, com 7,91 toneladas por hectare, embora ostente a maior área plantada do Nordeste. Com a audiência pública, ela objetivou discutir e analisar mais oportunidades para a profissionalização da mandiocultura no Estado, como, por exemplo, incluir a agricultura familiar nas estratégias industriais com política de preço mínimo, e criar uma agenda estratégica que desenvolva, valorize e incentive esta cultura. Outra proposta da parlamentar é agregar inovações tecnológicas à mandiocultura para aumentar a produtividade.
OPORTUNIDADES
Para o presidente do colegiado, Manoel Rocha (UB), esta cultura é permeada de segurança alimentar, estando a mandioca presente em quase todas as mesas dos brasileiros. Segundo Carlos Estevão, da Embapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que discorreu sobre o Mercado da Mandioca, Oportunidades e Desafios, o produto gera emprego e renda no campo, mas o Brasil, que já foi o primeiro produtor, hoje se encontra na quinta posição. A Nigéria é o maior produtor mundial.
A Bahia também ocupa a quinta posição dentre os estados produtores, com 109 mil hectares plantados e vem apresentando “queda vertiginosa” na produtividade desde o ano 2000, embora seus mais de 600 produtos derivados tenham largo uso em diferentes setores industriais, como na indústria de celulose, têxtil e metalúrgica, como acontece com a fécula. Ele pontuou que o uso da farinha de mesa tem apresentado acentuada tendência de queda no consumo, provocada pelas alterações na renda da população e na urbanização. Estes fatores influenciam nos hábitos alimentares e criam consumidores mais exigentes, como os que excluem o glúten da alimentação, “um movimento sem volta”, garantiu. Ainda assim, a Bahia ainda consome 1/4 da mandioca que produz. Como estratégias de mercado, ele apontou o tripé custo/qualidade/certificação como necessário para um maior crescimento.
Ao contrário da farinha, a mandioca de mesa cresce, e muito. Um exemplo, apontou, é o aipim frito, que tem pontuado com sucesso em cardápios de restaurantes e hotéis como alternativa à batata frita. Maior renda e a urbanização, os mesmos fatores que influenciam no declínio do consumo de farinha, são os mesmos que elevam o crescimento da mandioca de mesa, informou Estevão. Para ele, uma saída para a produção seria aliar-se alimento, turismo e gastronomia.
Outro uso da mandioca que vem registrando avanço é a fécula e seu uso igualmente diversificado, como na feitura do pão de queijo. O Paraná figura como o maior produtor nacional de fécula, um subproduto que registrou aumento considerável nos últimos anos, saltando de 1,3% em 2018 para 12% recentemente. A Bahia começa a despontar na produção, mas os números ainda são tímidos e “precisam melhorar”, a partir de investimentos na mandioca gourmet, por exemplo. Como desafios, ele apontou a redução dos custos e estabilidade de preços.
DESAFIOS
Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Mandioca, Jeily Viviane, o produto foi anunciado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) como a cultura do século XXI, que alimenta um bilhão de pessoas no mundo. No Brasil, disse, todos os estados são produtores, mas o país figura em 29º lugar em produtividade. A Bahia fatura R$ 500 milhões/ano com a mandioca, mas isso é muito pouco e poder ser muito mais. O Estado possui a terceira maior área plantada do Brasil, mas está na 27ª posição em termos de produtividade. O Extremo Sul é a região com maior produtividade, com 9,86 toneladas por hectare, mas esse número também poder ser muito maior, desde que haja incentivo e assistência técnica.
Ela citou experiências de absoluto sucesso realizadas na região. Teixeira de Freitas alcanço 31 toneladas/ha; Alcobaça e Nova Viçosa mais de 70 toneladas e um agricultor local atingiu a marca de 89 toneladas por hectare plantando de mandioca.Aumentar a produtividade é possível, garantiu Viviane, mas é preciso o desenvolvimento de maníveros âncora, onde podem ser indicadas e identificadas formas mais eficazes do plantio, controle de pragas e doenças, que maximizem essa produtividade
Outro problema posto pela engenheira agrônoma foi a questão do crédito. Ela denunciou que os agricultores familiares não têm acesso a financiamentos e sequer são atendidos pelos gerentes dos bancos. Relatou casos de desrespeito e humilhação e pediu tratamento humanizado para os pequenos produtores que, segundo ela, esperam até quatro anos por um empréstimo de 15 mil e não conseguem, ao final. “Eles precisam de ajuda”, clamou.
Amparada no Levantamento Sistemático da Produção (LSPA) de maio/2023, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a produção brasileira de raiz de mandioca neste ano será de 18,4 milhões de toneladas, colhidas em uma área total de 1,24 milhão de hectares. Esta produção, entretanto, significa crescimento de pouco mais de 1%, consequência do aumento de apenas 2,6% da área plantada.
Ainda de acordo com a Conab, 2023 começou com a manutenção na alta dos preços verificada no ano anterior, mas já em fevereiro sofreu desaceleração, e “os preços cederam consideravelmente”, inclusive na Bahia, que liderou a alta dos preços no ano passado quando, em novembro, houve um disparo de 32,7%. Segundo os dados da Conab, para 2023 a estimativa é de uma produção de 938,3 mil toneladas, 9,6% superior à de 2022
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