O lançamento do livro “Cachoeira e seu Município – Escorço Físico, Político, Econômico e Administrativo” pelo projeto ALBA Cultural, da Assembleia Legislativa, movimentou na noite desta terça-feira (28) o mundo acadêmico e cultural da Bahia. A obra do Pedro Celestino da Silva, atualizada e organizada pelo também historiador Manoel Passos Pereira, foi lançada na Academia de Letras da Bahia em ato que contou com a presença de acadêmicos, historiadores, estudantes e professores. O deputado Marcelino Galo (PT), autor do prefácio, representou o deputado Adolfo Menezes que presidia sessão de votação de quatro projetos de lei no mesmo momento.
Foi feita uma homenagem ao jornalista, escritor e historiador Jorge Ramos, recentemente falecido, integrante do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, IGHB, que foi “fundamental não apenas pelo incentivo, mas também pela ajuda no trabalho de coletar e organizar nas revistas do instituto publicadas entre 1937 e 1938 esse trabalho magistral de Pedro Celestino da Silva, falecido em 1941, e de quem não se conhece uma foto sequer”, disse Manoel Passos Pereira. O filho do jornalista, Diego Ramos, agradeceu em nome da família as palavras de Manoel e também do presidente da Academia, o professor Ordep Serra, conhecedor que era do dinamismo, capacidade do trabalho e aplicação de Jorginho Ramos.
Antes de iniciar a longa sessão de autógrafos, Manoel Passos Pereira falou um pouco do trabalho, lembrando que, cachoeirano que é, se interessou pelos escritos de Pedro Celestino da Silva ainda quando graduando em História nos anos de 1980. Ele acrescentou que o interesse foi aprofundado quando fez mestrado na Universidade do Porto, pois para se “conhecer a interiorização do povoamento do Brasil, e episódios como a Independência da Bahia, o 2 de Julho, é necessário que se estude a história de Cachoeira, que, depois de Salvador, foi a capital do Recôncavo, localizado às margens do rio mais caudaloso que deságua na Baia de Todos-os-Santos”. Por fim, agradeceu o belo trabalho do designer Bira Paim, que “ficou belíssimo” com a gravura escolhida por Jorge Ramos para a capa.
ATIVIDADES
O presidente da Academia, Ordep Serra, elogiou a importância para a historiografia da Bahia do resgate em livro de obra tão importante, material primário para o trabalho de qualquer historiador ou interessado, bem como tratou do convênio que alia a Assembleia Legislativa da Bahia com a instituição que preside – fundamental para o resgate de obras quase desconhecidas das novas gerações, mas nem por isso menos importantes. Ele relatou atividades ocorridas na Academia nos últimos dez dias, a começar pelo lançamento do livro “Cancioneiro, 1962 a 2023”, produção que reúne livros de poesia, poemas esparsos e diversas letras que compôs ao longo de sua carreira e também duas obras publicadas em regime de coedição com a Assembleia, “Vozes do nosso Tempo” (Aleiton Fonseca e Carlos Ribeiro) e “Contos Selecionados” (Carlos Ribeiro), na sexta-feira anterior, e enfatizou: “A Academia está viva, trabalhando e se aproximando da sociedade”.
O deputado Marcelino Gato (PT) demonstrou grande felicidade com a publicação da obra que fez a apresentação e se empenhou para a publicação, pois comunga com o pensamento do autor sobre a importância de Cachoeira, “a capital do Recôncavo” para a interiorização do povoamento da Bahia e, depois, na luta pela independência de Portugal. Ele é amigo do autor Manoel Passos Pereira desde a juventude (movimento estudantil). Autor do prefácio, agradeceu o privilégio ao amigo escritor, e aproveitou para elogiar o trabalho desenvolvido pela direção da Academia, “tão bem conduzida por Ordep Serra e seus confrades”, pela aproximação com entidades da sociedade civil organizada na sua tarefa de difusão de cultura.
FÔLEGO
Com quase 500 páginas, subdividida em duas partes, Escorço é uma obra de fôlego. A primeira parte conta os primórdios da formação da cidade, desde a criação da Capitania da Bahia, por carta de doação a Francisco Pereira Coutinho, em 1534. Ele descreve as dificuldades das primeiras povoações às margens do Rio Paraguaçu e o estabelecimento do porto da Cachoeira. O autor se detém em minúcias sobre a geografia em que se instalou o município, algo que remete ao livro Os Sertões, de Euclides da Cunha.
Os textos, apesar de escritos nos anos 30 do século passado, não oferecem a visão eurocêntrica em voga na época. Citações do período colonial, o que determina muitas vezes uma anacrônica visão eurocêntrica, mesmo quando cita o padre jesuíta, que viveu no Século XVII. Exemplo disso: “A paz com indígena do país durou enquanto durou também a paciência dele, porque não houve comércio vil, barbaridade, violência, extorsão e imoralidade que os portugueses não praticassem em todas as capitanias contra aqueles a quem chamavam selvagem, mas a quem, neste ponto, excediam em selvageria”.
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