A Assembleia Legislativa abriu ontem as festividades pelo Dia da Africa (25 de maio) ao realizar sessão especial comemorativa pelo sétimo ano consecutivo. O evento foi promovido pela Comissão de Promoção da Igualdade, presidida pelo deputado Bira Corôa (PT), e teve como tema “África Recontada: Inclusão, Educação e ação”, focado no processo de implementação da Lei Federal 10.639, que garante a obrigatoriedade da história e cultura afro-brasileiras nos currículos escolares.
Bira explicou que o objetivo do evento foi ampliar o debate sobre a cultura afro-brasileira e as dificuldades enfrentadas há dez anos de ver completamente implementada a Lei 10.639. Ele também falou da expectativa de que o Poder Executivo envie ainda este ano o projeto do Estatuto de Igualdade Racial, mas anunciou que se absteria do pronunciamento protocolar para viabilizar uma programação que previa a palestra da professora Vanda Machado, do Ilê Axé Opó Afonjá, e uma homenagem póstuma a Zilda Paim e outros 14 educadores e personalidades, que receberam placas honoríficas por sua contribuição à educação inclusiva em relação aos afrodescendentes.
MUSICALIDADE
A sessão iniciada às 16h contou com a apresentação de dança das alunas da Escola Ailton Pinto de Andrade, ao som de Pérola Negra. Não foi a única contribuição musical, já que a palestrante Vanda Machado não se furtou de cantar “Carinhoso”, de Pixinguinha, “As Rosas não Falam”, de Cartola e “Oração de Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi, durante sua fala. “Se eu fosse tratar do tema proposto, teria que escrever três livros”, disse, justificando que procuraria falar dos “filhos da África no Brasil”.
Ao ouvir as palavras de Vanda, a plateia, composta por muitos secundaristas fardados aprenderam um bocado sobre a diáspora africana, na qual foram sequestradas 11 milhões de pessoas para trabalho escravo, das quais, quatro milhões chegaram ao Brasil, e a correlação entre o sofrimento dos negros nas minas de ouro do Brasil e o enriquecimento da Inglaterra. O Tratado de Methueen, entre Portugal e os ingleses, criou um desequilíbrio na balança comercial entre os dois países, minorada pelas transferências do ouro brasileiro para os cofres britânicos. “O fruto do suor negro se transformou em máquinas na Inglaterra”.
A palestrante também falou sobre a importância dos terreiros de candomblé para recriar a dignidade da família ancestral em terras brasileiras, depois de serem destroçadas pela brutalidade do tráfico. Além dos exemplos de compositores negros, Vanda passou pelas artes plásticas e citou outros intelectuais negros, como o geógrafo Milton Santos. Entre as imagens apresentadas pela professora estava a de uma criança loura e sua babá negra e disse que mulheres negras cuidam dos primeiros anos e dos últimos, como cuidadoras. “Fico emocionada ao ver aquelas mulheres levando de braços dados velhinhos brancos, coisa que nunca fizeram ao longo da vida”, disse.
ZILDA
Descrita por Jorge Portugal como uma professora “revolucionária e pioneira que quebrou paradigmas”, Zilda Paim introduziu há 55 anos o ensino da cultura negra na escola Prado Valadares de Santo Amaro, levando para a sala de aula mestres de capoeira, de maculelê e ialorixás. Morta há pouco menos de dois meses, aos 94 anos, Zilda também foi a primeira vereadora da cidade, já na década de 70, chegando a se tornar presidente da Câmara. Mas mostrava-se angustiada ao não ter um lugar para abrigar o acervo cultural que construiu, após sua morte.
“Se não houver um lugar digno, queimo tanto antes de morrer”, garantiu em entrevista a Jorge Portugal. Mas não queimou e, por conta disso, o educador pediu e obteve a promessa do reitor da Universidade Federal do Recôncavo, Paulo Gabriel, de que seria encontrado um espaço adequado. O deputado federal Amauri do PT e o secretário estadual da Promoção da Igualdade, Elias Sampaio, também assumiram para si a tarefa de atender ao desejo da professora, revelado 18 dias antes de sua morte.
Ao longo da sessão, existiram diversos outros pronunciamentos a exemplo dos deputados Maria del Carmem (PT) e Deraldo Damasceno (PSL), de Marinelson Carvalho, da Associação de Empresários Negros; da professora Amelia Maraux, de Camilo Afonso, da Casa de Angola; o advogado Sérgio São Bernardo, a ialorixá Jaciara Ribeiro, representando a secretária de Política para Mulheres, Vera Lúcia Barbosa, entre outros.
Além de Zilda, foram condecorados os professores Malaquias, Aidê Carvalho, Deise, Vanda Machado, Ana Célia, Simone Magalhães, Yeda Pessoa, Vilma Nascimento, Vinícius Vianna (também postumamente) Borges, Maria das Graças Rocha Lucas Neto, Jorge Portugal e Camilo Afonso. A sessão foi prestigiada ainda pela deputada Fátima Nunes (PT), o tenente Elton Santana, representante da Anafro, Fábio Santana, da Fundação Palmares, que compuseram a mesa, tendo sido registrada a presença do vice-prefeito de Juazeiro, Irmão Francisco, vereadores e secretários de diversos municípios baianos.
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