Uma parte da história do Brasil foi contada ontem na Assembleia Legislativa, sob o prisma dos movimentos sociais, durante a sessão especial de comemoração dos 40 anos da Cese (Coordenadoria Ecumênica de Serviço), proposta pela deputada Neusa Cadore (PT). Debates sobre o enfrentamento à ditadura, a consolidação do movimento negro na Bahia, das mulheres e conferências sindicais. Momentos como estes foram apoiados pela Cese e lembrados ontem em pronunciamentos de representantes de entidades sociais e de governamentais.
A presença da ministra Luíza Bairros, secretária nacional de Promoção da Igualdade Racial, e de três secretários estaduais (Moema Gramacho, de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza; Vera Lúcia Barbosa, de Políticas para Mulheres; e Antonio Rubim, da Cultura) demonstram a representatividade do evento, que contou ainda com lideranças de diversas denominações religiosas e de movimentos sociais, como João Pedro Stedile, fundador do Movimento dos Sem Terra (MST) e do cacique Babau, líder tupinambá na Serra do Padeiro, Buerarema.
Diante da presidente da Cese, Eleni Rangel; e da diretora executiva, Eliana Rolemberg, Neusa disse que “se foi revolucionário o seu surgimento em plena ditadura militar, é também revolucionária toda a sua trajetória”. Ela ressaltou que a entidade representa a luta dos movimentos sociais de forma ampla e plural. “Se hoje podemos desfrutar de um país mais justo e democrático é devido às lutas populares”, disse, ponderando que muito há o que ser feito para se alcançar a “efetivação plena dos direitos e para a erradicação da pobreza e das desigualdades”.
PRIORIDADE
Eleni Rangel ocupou a tribuna para explicar que a coordenadoria nasceu com o objetivo de “desafiar as igrejas evangélicas históricas a voltar sua atenção e prioridade para a região mais pobre do Brasil, o Nordeste, apoiar pequenos projetos comunitários e estreitar o diálogo com a Igreja Católica para uma experiência comum”. Anivaldo Padilha, da diretoria do Conselho Latinoamericano de Igrejas, lembrou o período da fundação, em 1973, quando a repressão dominava todos os aspectos da sociedade, à exceção das igrejas. “A Cese teve papel fundamental no processo de redemocratização”, afirmou.
Luíza Bairros, por sua vez, ressaltou o caráter amplo da Cese, ao lembrar que os militantes do movimento negro eram tratados como divisionistas pela esquerda, mas nem por isso a entidade deixou de dar seu apoio. A ministra foi testemunha e participante não só da ajuda da instituição da formação do Movimento Negro Unificado (MNU) como também do movimento feminista, quando a atitude foi sempre de cooperação, mesmo que havendo discordâncias.
LUTAS
João Pedro Stedile foi duro em seu pronunciamento ao felicitar Neusa pelo evento, mas considerar que a Assembleia não seria o local mais adequado para a homenagem. “Tradicionalmente da Assembleias Legislativas não tem sido lugar do povo brasileiro e, muito menos da Câmara dos Deputados, que virou um verdadeiro supermercado”. O militante falou da atuação da Cese junto ao MST, destacando a prioridade dada à educação popular, como arma do povo para poder transformar. Stedile também bateu na mídia e no Poder Judiciário, afirmando que a Justiça no Brasil ainda não alcançou a República.
Diplomaticamente, Yulo Oiticica discordou de Stedile e ressaltou que não haveria melhor ambiente para comemorar o aniversário da Cese. Ele lembrou que, “quando os movimentos sociais decidiram criar o PT, ajudaram a construir o partido determinado a fazer parte dos instrumentos da burguesia, mas não para repetir o que a burguesia fazia”. Como exemplo, ele citou a ação da Comissão de Direitos Humanos para proteger a integridade do cacique Babau, que foi preso pelas polícias federal e estadual sob acusação de assassinato, quando sua cabeça estava a prêmio em Buerarema e da tribo de Serra do Padeiro.
INDIGNAÇÃO
Babau trouxe a indignação dos últimos dias para dentro do plenário. Disse que não quer a guerra, mas se dispôs a levar milhares de índios para o Mato Grosso do Sul, caso “o governo mate mais um parente”, referindo-se às duas mortes de terenas em desocupações de terras. “Ninguém divulga que são cinco mil índios para 1,5 mil hectares, quando cada fazendeiro dispõe de cinco mil hectares”, comparou, exigindo a demarcação da terra. Ele também se mostrou indignado com a situação dos guaranis-kaiowás, também naquele estado, e acusou o governo federal de estar “roubando nossas terras, nossa água, nossas matas”, com a construção de hidrelétricas.
Moema Gramacho, representando Jaques Wagner, ofereceu a capacidade de negociação do governador, para uma possível interlocução da presidente Dilma Rousseff com os povos indígenas. “Se ainda não alcançamos a democracia plena, muito já foi alcançado”, destacou, considerando, no entanto, que, se os movimentos sociais obtiver apoios como da Cese e buscar estar cada vez mais se organizando “poderemos fazer sessões como esta como menos críticas e mais conquistas a ser celebradas”.
Ao final da sessão, que foi embelezada pela Orquestra do Sertão, de Conceição do Coité, a diretora executiva Eliana se pronunciou, recebeu homenagens dos filhos e netos, além de presentear diversas pessoas com o livro da Cese, contando a história dos seus primeiros 40 anos. Estiveram presentes os deputados federal Luís Alberto (PT) e estaduais Maria del Carmem (PT), Sargento Isidório (PT) e Álvaro Gomes (PC do B) e Delegado Damasceno (PSL).
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