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Tratamento do autismo entra na pauta da Comissão de Saúde

Publicado em: 09/10/2013 00:00
Editoria: Diário Oficial

Colegiado comandado por José de Arimatéia promoveu audiência pública com a participação de especialistas no tema
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A Bahia tem 70 mil autistas, 10% deste contingente em Salvador e nenhum deles pode frequentar escola. "Não existe qualquer possibilidade de um autista estudar em escola regular em Salvador, por falta de preparo dos professores e em função do comportamento atípico" desses pacientes. É preciso, portanto, escolas e educação especiais. A afirmação é da psiquiatra e PhD no assunto Milena Pondé, ao garantir, com base em estudos científicos, que, quanto mais cedo houver estimulação e educação adequada, maiores são as chances de sucesso na amenização dos sintomas.
O autista necessita de estímulo precoce, educação especializada, atendimento psicológico. E a família, também. Esta é a luta da AMA – Associação dos Amigos dos Autistas, que clama pelo cumprimento das leis estadual e federal que garantem todos estes procedimentos àqueles diagnosticados como portadores do espectro autista, mas que não saem do papel. Na Bahia, somente agora será inaugurado o primeiro núcleo multidisciplinar da pessoa autista, que deverá cuidar do paciente e da família e vai funcionar no Campo Grande, mas sem data divulgada para inauguração.

DIFICULDADES
 
Este assunto foi amplamente debatido ontem em audiência pública da Comissão de Saúde e Saneamento da Assembleia Legislativa, presidida por José de Arimatéia, inclusive com a presença do Secretário de Justiça e Cidadania, Almiro Sena. Segundo Rita Valéria Brasil, da AMA, as dificuldades são inúmeras e passam por quase todas as áreas, da educação especializada ao atendimento psicológico, passando pelo luto e resistência inicial por que passam as famílias dos autistas, até o bulling e preconceito que os pacientes enfrentam. No último domingo, por exemplo, relata Rita Brasil, uma criança autista, do sexo feminino, em crise convulsiva, foi rejeitada por um hospital vinculado a um plano de saúde em Salvador. "A médica que a atendeu resistiu em interná-la e terminou por mandá-la de volta para casa."
Além da falta de preparo dos profissionais – médicos e da educação –, os autistas ainda sofrem com o pouco número deles para o atendimento. "Entre psiquiatras infantis e neuropediatras, temos apenas 365 desses profissionais", diz Rita Brasil, relembrando que o contingente de autistas somente em Salvador ultrapassa a casa dos sete mil. E a existência de diagnóstico e tratamento precoces pode fazer com que um autista leve vida normal, adianta Milena Pondé.
"Muitas pessoas desconhecem a síndrome e interpretam o comportamento das crianças de forma equivocada, sem ao menos terem noção de que o autismo se manifesta em diferentes graus", pondera o presidente da Comissão de Saúde, deputado José de Arimateia (PRB), adiantando que a audiência pública de ontem "foi uma forma encontrada para gerar o conhecimento e conscientização de todos. Precisamos levantar a bandeira para uma melhor qualidade de vida para eles".

 
SINTOMAS

Para Adriana Nogueira, mãe de uma criança de 2 anos diagnosticada como possuidora do espectro autista, o tratamento envolve múltiplas especialidades médicas, como acompanhamento neurológico, fonoaudiológico, psicológico e psiquiátrico e com terapeutas ocupacionais, além da educação especial. E as famílias, "que também ficam autistas", necessitam de assistência para poder lidar satisfatoriamente com a situação.
Além de um problema social, o autismo, se não tratado precocemente, passa a ser um problema para a economia, alerta Daniele Wanderley, do NIIP – Núcleo Interdisciplinar de Intervenção Precoce da Bahia. Segundo dados por ela revelados, estudos realizados pelos Estados Unidos apontam que para cada dólar gasto com o diagnóstico precoce, o Estado gastará US$ 16 com tratamentos posteriores. Pais e profissionais devem estar atentos a alguns sintomas que caracterizam o espectro autista e podem ser observados ainda no primeiro ano de vida, quando as crianças são ainda bebês, portanto.
Alguns deles são: falta de troca de olhares entre a criança e o adulto; inexistência de comunicação; dificuldade no uso e compreensão das palavras e do trato com objetos. Além disso, os pais devem estar atentos se seus filhos tiveram perdas recentes da capacidade adquirida e se há assimetria corporal. A criança autista também engatinha de maneira especial, dificilmente sorri, não provoca a interação com outros, não imita gestos nem abre a boca quando a colher se aproxima.
Estas e outras questões constam de questionário científico que é aplicado pelos profissionais com os pais, que devem, ainda, verificar se seu filho responde pelo nome quando chamado e se a circunferência craniana está em proporções normais. Todos estes são sintomas do espectro autista que são elencados em três eixos centrais: o autista apresenta dificuldade de comunicação verbal e não verbal; de interação social e exibe comportamento repetitivo.
Para a psiquiatra Milena Pondé, o autismo não deve ser qualificado como doença "e sim como traços genéticos que acompanharão a pessoa para sempre". Mas os autistas podem evoluir satisfatoriamente "na forma de ser e de estar", desde que haja diagnóstico e tratamento precoces.




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