MÍDIA CENTER

Comissão apóia criação de centro para tratar a anemia falciforme

Publicado em: 08/11/2005 21:56
Editoria: Diário Oficial

O médico Gildásio Daltro fez palestra na audiência pública da Comissão de Saúde, presidida por Gerson de Deus
Foto: null
Os integrantes da Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa vão apoiar a criação de um centro de referência para o tratamento de anemia falciforme na Bahia. O compromisso foi firmado ontem durante audiência pública sobre a doença, que atinge mais de 1,3 milhão de pessoas na Bahia - aproximadamente 10% da população total do estado. O centro vai funcionar no Hospital Universitário Professor Edgar Santos (Hupes), ligado à Universidade Federal da Bahia (Ufba). Para o presidente do colegiado, deputado Gerson de Deus (PFL), este passo será fundamental para o melhor acompanhamento dessa grave doença, constituindo-se numa iniciativa importante para o seu controle.

O pedido que a comissão apoie sua criação partiu do médico Gildásio Daltro, chefe do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hupes. Daltro proferiu a palestra principal da audiência pública, que contou com a presença de diversos parlamentares, familiares e portadores da doença falciforme. De acordo com ele, as negociações com o Ministério da Saúde já estão bem adiantadas para criação do serviço no Hupes, e o apoio da Comissão de Saúde consolidará essas tratativas. Ele elogiou a sensibilidade de Gerson de Deus e dos demais parlamentares.

Na sua palestra, Daltro explicou os motivos que tornam tão importante a criação de um centro de referência na Bahia. A anemia falciforme, afirmou ele, é uma doença genética, que só pode ser curada com transplante de medula e que atinge exclusivamente os afrodescendentes. "Na Bahia estima-se que aproximadamente 75% da população seja afrodescendente. E desse segmento cerca de 15% é portador da anemia falciforme", observou o médico.

Gildásio Daltro disse que a anemia é uma alteração no glóbulo vermelho, célula sangüínea flexível e arredondada que transita por todo o corpo humano, levando oxigênio para os tecidos e órgãos, através de um pigmento chamado hemoglobina. Os glóbulos vermelhos dos portadores da doença têm o formato de meia-lua ou foice, o que dificulta sua passagem pelos vasos sanguíneos e a circulação no sangue.

Os sintomas mais comuns são anemia crônica, a icterícia (cor amarelada na pele e no branco dos olhos), a síndrome mão-pé (inchaço nos punhos e tornozelos, mais frequentes até os 2 anos de idade) e as crises dolorosas (em ossos, músculos e articulações). As dores mais leves podem ser tratadas em casa com a ingestão de líquido. Já as crises requerem acompanhamento médico. Por conta de ter potencial para atingir diversos órgãos, o tratamento da doença precisa ser multidisciplinar.

De acordo com Gildásio Daltro, já está sendo estudado no Hospital das Clínicas o uso de células-tronco na reconstrução das articulações ósseas de falcêmicos. Ele explicou que as células-tronco têm alta potencialidade de produzir tecidos diferenciados e, neste caso, irão produzir tecido ósseo.

Daltro, cuja especialidade é ortopedia, explicou que a doença lesa principalmente o aparelho locomotor e o sistema músculo-esquelético. Dores nos ossos e músculos, seguidas de inflamação, resultam freqüentemente em necrose do tecido afetado. A estimativa é que 60% dos portadores da doença desenvolvam lesões ósseas que podem resultar em perda de movimentos de articulações como ombros, joelhos e quadril. "Estimamos que entre 15% e 30% dos portadores de anemia falciforme apresentam necrose óssea na cabeça do fêmur", constatou Daltro.

Também presente no encontro, a coordenadora da Associação Baiana de Anemia Falciforme, Maria Cândida Queirós, pediu mais atenção para prevenção da doença que pode ser detectada nos recém-nascidos através do exame neonatal - popularmente conhecido como teste do pezinho. "Apesar da doença não ter cura, os sintomas podem ser minimizados se ela for tratada desde cedo", disse ela, cuja filha pequena é portadora do problema.

No encerramento, Gerson de Deus reafirmou que dará todo apoio à criação de centro de referência em anemia falciforme. Ele se propôs inclusive a levar o médico Gildásio Daltro a um encontro com o secretário estadual de Saúde, José Antônio Rodrigues Alves, para saber de que forma o governo da Bahia pode ajudar na criação do centro. Já o deputado Zé Neto (PT) sugeriu que, caso seja necessário, os parlamentares podem viajar a Brasília para tratar do assunto com o Ministério da Saúde - já que o Hupes pertence ao governo federal.

A audiência pública de ontem foi proposta pelo deputado Pedro Alcântara (PL), que é médico como Gerson de Deus e Edmon Lucas (PTB), também presente nos trabalhos. Participaram ainda da sessão os deputados Angelo Coronel (PL) e Zilton Rocha (PT).



Compartilhar: