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ALBA celebra Dia da Consciência Negra e centenário do terreiro Raiz de Ayrá

Publicado em: 22/11/2018 22:23
Editoria: Notícia

A tarde desta quinta-feira (22) no Plenário Orlando Spínola, na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), foi marcada pela sessão especial alusiva ao Dia da Consciência Negra e em homenagem aos 100 anos do terreiro Raiz de Ayrá. O encontro foi presidido pelo deputado Bira Corôa (PT), que propôs as homenagens na Mesa Diretora do Legislativo.

O terreiro Raiz de Ayrá, sediado na cidade de São Félix, no Recôncavo baiano, comemora seu centenário neste ano. Mãe Mariah Ferreira, responsável pelo espaço, contou um pouco da história do terreiro e agradeceu a homenagem. “Agradeço ao deputado Bira Corôa por esta homenagem ao centenário do terreiro Raiz de Ayrá. Agradeço ao Olorum por ter me permitido e me dado o direito de, aos 84 anos, enfrentar um terreiro de 100 anos vindo de um baluarte, um pai de santo das antigas que começou o candomblé, como ele falou, com os paus fincados no quintal, pois não tinha condições de fazer o terreiro. Eu enfrento esse terreiro desde 1975, quando o pai de santo viu que não tinha mais como levar a casa e entregou para mim, devido à minha dedicação, e dez meses depois ele veio a falecer”, relatou Mãe Mariah.

Proponente da sessão, Bira Corôa rememorou a luta do povo negro no Brasil pela sobrevivência. “Essa força permitiu que, em séculos, pudéssemos existir, sobreviver, transferir conhecimentos pela oralidade, reagrupar, refamiliarizar, reconstituir a estrutura de sociedade e manter viva a nossa identidade cultural pela força da nossa fé, da nossa crença religiosa”, discursou.

“Não se pode deixar de retratar que este centenário não é apenas uma celebração, é uma identificação, é um reconhecimento. E essa Casa, no dia de hoje, não faz nada além do compromisso e do respeito de reconhecer que 100 anos não se passaram como 100 dias, mas que se registre como 100 anos de luta, afirmação, conhecimento e, por que não dizer, de serviços prestados à sociedade”, ponderou o petista, acrescentando. “No dia de hoje, a palavra que representa toda a nossa disposição é agradecimento pelos 100 anos de perseverança, de luta e de afirmação da nossa identidade. De resistência em um processo de luta, de superações, mas acima de tudo, de conquistas. 100 anos depois para adentrarmos a uma Casa como esta pela porta da frente sem precisar omitir a nossa religiosidade, sem precisar esconder os nossos turbantes, sem retirar as nossas contas. 100 anos depois, se pode hoje dizer que esta Casa, como espaço de interesse da nossa sociedade, como a Casa do Povo nos recebe”, rememorou Bira Corôa. 

DEPOIMENTOS

O sociólogo Ailton Ferreira esteve no encontro representando a secretária estadual da Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), Fabya Reis. “Em nome da Sepromi, quero dizer sobre a importância deste marco que é esta sessão que o deputado Bira Corôa preside e da qual é propositor. Quero parabenizar a nossa mãe Mariah, que é um exemplo de retidão. As pessoas falam da beleza, da suavidade, mas que é também às vezes da chamada de atenção, da correção. Ela tem este misto”, listou Ferreira. 

Promotora de Justiça do Ministério Público Estadual, Márcia Regina dos Santos Virgens fez o seguinte registro. “Quero me dirigir às minhas irmãs de santo, aos meus irmãos de santo neste plenário, e dizer que é uma alegria extraordinária, incomensurável que estou vivenciando nesta Casa. Neste ano, que completamos 70 anos da declaração universal dos direitos humanos, 21 anos que o Ministério Público do estado da Bahia criou, de forma pioneira, a promotoria de combate ao racismo, 130 anos da abolição, quero aqui reiterar que deveremos permanecer juntos lutando, resistindo e, com a força de Xangô, nós seremos vitoriosos”, discursou.

O vereador de Salvador, Sílvio Humberto (PSB), esteve no encontro e parabenizou o deputado Bira Corôa pela proposição em homenagem ao Dia da Consciência Negra e aos 100 anos do terreiro comandado por Mãe Mariah em São Félix. “É importante estar neste espaço e fazer isso, reconhecer a história dos nossos. Para mim, é uma emoção grande poder participar dessa atividade, dessa justa homenagem. Estes 100 anos são 100 anos de resistência. E é por isso que nós, com esta força que nós temos, não temos que temer apenas quatro anos, o que são quatro anos na história do nosso povo? Certamente, eles, elas e ele vão passar. Porque outros passaram, nós resistimos”, disse Humberto, logo após fazer referência ao cenário político do Brasil.

A Fundação Pedro Calmon esteve representada por Rafael Fontes. Em sua fala, ele destacou o papel da entidade no trabalho de registro da memória da Bahia. “Por muito tempo, a memória oficial da Bahia foi pautada na chamada memória dos grandes homens, ou dos políticos, ou ainda daquelas personalidades que tinham um papel institucional. Nós temos, há algum tempo, atuado no reconhecimento da memória de outras figuras, de outras personagens que são tão importantes para a construção da memória da Bahia. O caso do terreiro Raiz de Ayrá é fundamental para a gente entender como a religiosidade afro-brasileira, como as diversas nações, nesse caso a nação nagô, constroem a nossa identidade baiana e a nossa forma de pensar, de atuar, e é por isso que nossa fundação está aqui em especial trazendo esse abraço, mas nos compromissando a construção de uma memória e de uma história também do Candomblé para construção da história da Bahia”, afirmou.
 
Ricardo Tavares, sacerdote do terreiro Unzó Tatêto Lembá, o primeiro tombado como Patrimônio Cultural de Camaçari, falou da alegria de participar da homenagem a Mãe Mariah. “A senhora só nos orgulha, mãe Mariah. A senhora representa o trono de Xangô com muito esmero. Se eu pudesse descrever, a senhora não seria certamente o ouro que fundiu a coroa. Com certeza a senhora seria as pedras cravejadas que estão na coroa e o brilho que o ouro tem. Porque a senhora é vida. Vida longa, mais 100 anos ao terreiro Raiz de Ayrá”, elogiou. 

O Ogã Lee Ojuobá relatou sua trajetória de vida e demonstrou gratidão pelo acolhimento recebido no terreiro Raiz de Ayrá. “Para a gente do terreiro, é uma alegria, principalmente para mim, estar aqui presente nesta Casa”, expressou. O Ogã Francisco Régis Ferreira Bonfim disse, em seu discurso, estar feliz pela comemoração do centenário do ilê. “A gente vem de uma época em que o Candomblé era proibido, isso evoluiu e conseguiu, com a força dos orixás, caminhar. Temos uma casa renomada com uma mãe de santo respeitada, que é uma fera, mas uma pessoa doce. A gente agradece muito a todas as forças que convergiram e nos permitiram comemorar 100 anos. Que a gente consiga comemorar muitos e muitos outros 100 anos”, desejou.



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