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Genocídio dos povos tradicionais de matriz africana é debatido pela ALBA

Publicado em: 24/11/2021 20:05
Editoria: Notícia

Concorrido evento, proposto por Jacó, foi realizado na Câmara Municipal de São Francisco do Conde
Foto: AscomALBA/AgênciaALBA
A Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), em parceria com a Câmara Municipal de São Francisco do Conde, realizou, nesta quarta-feira (24), uma audiência pública que debateu o genocídio biomítico dos povos tradicionais de matriz africana. O evento teve sua realização aprovada pela Comissão de Promoção da Igualdade da ALBA, onde foi proposta pelo deputado Jacó Lula da Silva (PT), presidente do colegiado.



O encontro aconteceu no plenário da Câmara de São Francisco do Conde e foi conduzido por Jacó, que representou o deputado Rosemberg Lula Pinto (PT). A audiência pública ocorreu diante de pedidos feitos por diversas lideranças religiosas ligadas ao candomblé, que se sentiram ofendidas com um vídeo feito por um pastor identificado na rede social Facebook como “Torre Vigia”. Na transmissão ao vivo feita em seu perfil no dia 4 de outubro, ele aparece em um local onde funcionava um terreiro, e passará a ser uma igreja. Nesse contexto, profere palavras de desrespeito ao candomblé e chega a chamar um orixá de satanás.



O deputado Jacó explicou que, como resultado do encontro, um documento será elaborado e enviado a todos os órgãos competentes para adoção de medidas cabíveis. O presidente da Câmara de São Francisco do Conde, vereador Luiz de Campinas, defendeu a luta pela liberdade de crença, direito assegurado pela Constituição brasileira. A deputada federal Erika Kokay (PT-DF) participou do evento de forma remota, através da plataforma Zoom, e informou que está sendo elaborada uma proposição para que o racismo religioso seja tornado crime nos moldes da legislação que trata do racismo.



Ex-vereador de São Francisco do Conde e secretário de Governo do município, Eliezer de Santana afirmou que o poder público precisa estar atento às manifestações de desrespeito e violência com os povos tradicionais de matriz africana. Já o secretário municipal de Cultura e Turismo, Robert Alexandre, elogiou a realização do evento para debate do problema, mas afirmou que não basta somente isso. “Precisamos que não fique somente no discurso, que parta para a ação”.



Tata Ricardo Tavares, sacerdote do terreiro Lembá em Camaçari, também participou do debate de forma remota. Em desabafo, disse que as religiões de matriz africana não aguentam mais tanta demonização, tanta perseguição. Vereadora de Salvador pelo Psol, Laina Crisóstomo relatou que seu desejo é que os pais de santos não precisem mais perder seus territórios para “o povo que diz defender o exército de Cristo”.



Leonel Monteiro, presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro Ameríndia (AFA), afirmou que o racismo e a intolerância religiosa atingem as comunidades negras de forma cruel. Tata Edson, representante do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (FONSANPOTMA), classificou o momento como histórico, mas disse estar entristecido com o contexto atual.



Pai Tero, do terreiro Ilê Axé Sarapocan, em São Francisco do Conde, também destacou a importância da audiência pública e cobrou providências dos poderes legislativos nas esferas municipal, estadual e federal. Representando a delegada Maria Tereza, titular da Delegacia de Polícia Civil de São Francisco do Conde, a escrivã administrativa Fabiana Luise de Almeida informou que o órgão está investigando não apenas um caso de intolerância religiosa, mas um crime contra um povo de matriz africana.



O professor e doutor Pedro Leiva, diretor do Instituto de Letras e Humanidades da Universidade de Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) afirmou que há um ódio mortal pelas religiões de matriz africana. “Eles combinaram nos matar. Estamos aqui reunidos combinando que nenhum de nós pode morrer nesse país”, conclamou. Professora, mãe Alva Célia defendeu a valorização da história do povo negro. “Nós, povos de santo, temos uma contribuição civilizatória imensurável dentro desse mundo”. Na continuidade da audiência pública, Dejane Abaloji, representante da Federação Nacional do Culto Afrobrasileiro (Fenacab), contou que foi a primeira ialorixá a abrir um boletim de ocorrência na delegacia de São Francisco do Conde contra o pastor, devido ao vídeo com gestos e palavras de desrespeito.



Também presente ao encontro, o diácono José Everaldo Bispo pediu desculpas aos presentes por todos aqueles que já desrespeitaram a crença e citou um pensamento de Mahatma Gandhi, que dizia: “As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo?”. 



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