A deputada Fabíola Mansur (PSB) inseriu, na ata dos trabalhos da Assembleia Legislativa, uma moção de profundo pesar pelo falecimento de Janio Ferreira Soares, secretário da Cultura e Esporte da Prefeitura de Paulo Afonso e articulista do Jornal A Tarde, dentre outros veículos de comunicação. Janio morreu na madrugada de segunda-feira (13), aos 62 anos, após sofrer um infarto “na cidade em que nasceu, amou incondicionalmente e onde gostaria de guardar seus últimos pensamentos no momento mais crítico da vida”.
A socialista lembrou que, em uma de suas muitas crônicas, Janio Soares revela que, se lhe fosse permitido escolher uma última imagem, ante a morte iminente, escolheria contemplar o sertão, só para ser transportado aos seus tempos de menino, na então cidade de Santo Antônio da Glória, de onde se emancipou Paulo Afonso. “Queria ouvir, pela derradeira vez, os sinos da igreja, relembrar de como atravessava as ruas com uma peteca na mão, os ouvidos atentos às conversas dos mais velhos”, disse o cronista. Conhecido na cidade como Janinho, muito querido no meio cultural e intelectual, ele foi um proeminente cronista, famoso pelo seu texto impecável, conhecimento, humanismo e um senso de humor que poucos têm nos dias de hoje, salientou a deputada.
Seus escritos, segundo o próprio Janio, eram para “distrair” sua audiência, a quem chamava “minhas velhinhas”. A comoção tomou conta da cidade de Paulo Afonso e em todos os cantos onde chegavam suas belas mensagens, com a notícia da morte de Janio, um cronista que regressou à tradição lírica e humorística da crônica carioca dos anos 50 e 60, mas situando seu espírito no sertão, no homem e na cultura de Paulo Afonso e arredores.
Muitas manifestações de carinho e apreço inundaram as redes sociais. Amigos do jornal A Tarde também se pronunciaram: “Seus textos eram cheios de poesia, bebida, pratos fartos e vida. Fomos amigos por 16 anos, mas sempre à distância, na base do ‘nunca te vi, sempre te amei’. E como o amei! Seu primeiro texto no jornal A Tarde se referia a João Ubaldo Ribeiro e já trazia toda a graça e agilidade de seus escritos futuros. Quem era aquele desconhecido que escrevia tão bem? - nos perguntávamos na redação. Levado ao jornal pelas mãos de Vitor Hugo Soares, não parou mais de viver em voz alta, na página de opinião. Hoje, fico desnorteado com sua perda. Parece uma crônica sem desfecho. Ou uma história absurda do próprio Janinho. Fiquemos atentos. Ele ainda pode estar vivo, na virada de alguma esquina, só para nos pregar uma peça”, homenageou o jornalista Claudio Leal, que trabalhava no jornal A Tarde à época do ingresso de Janio, em 2005.
“Conheci Janio ainda garoto, em Santo Antônio da Glória, hoje um bairro de Paulo Afonso. Eu tinha perdido o contato dele e, um dia, recebi um e-mail de uma pessoa falando de um artigo meu que tinha lido. E aí respondi: olha, eu sei quem é você. Era o Janio”, conta Vitor Hugo Soares. “Eu disse, então: sei que na sua gaveta deve ter alguns bons escritos, pegue o primeiro que você achar e me manda. Não deu outra, ele me enviou uma crônica, eu publiquei na página de opinião do jornal A Tarde. Foi um sucesso logo de saída, um texto primoroso”, recordou o jornalista. “Ele sempre foi um tipo raro de cronista. Aqueles talentos que escrevem no correr da pena, ele tinha muito essa capacidade”, observou.
“Apesar de nunca o ter encontrado pessoalmente, era um amigo muito querido. Tínhamos um excelente e frequente diálogo. Fiquei realmente triste”, comentou Dimitri Ganzelevitch, também articulista de A Tarde. O professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Nelson Pretto, foi outro a prestar homenagens ao colega. “Não consigo acreditar que se foi dessa vida o meu vizinho aqui em A Tarde, que se tornou um grande amigo de um único encontro. Janio Soares era - era nada, é! - um gênio da escrita, da cultura, da amizade e da raça humana”, afirmou Pretto. “Além de reunir uma série de qualidades que faziam dele um de nossos melhores cronistas, Janio transbordava simplicidade e amor - à sua região, ao São Francisco, ao seu sítio, sua família, suas plantas e seus animais. E sabia cultivar amigos. Boa parte deles nem o conhecia pessoalmente, o que não impedia frequente e rica troca de correspondência”, garantiu a diretora de Redação de A Tarde, Mariana Carneiro.
A presidente da Comissão de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia e Serviços Públicos da ALBA explica que a vida política de Janio em sua terra natal começou em 1978, quando o então prefeito de Paulo Afonso, Zé Ivaldo, convidou o jovem para assumir o departamento de turismo e eventos da cidade. Desde sua primeira posse, Janio só esteve ausente da cadeira quando se tornou também secretário no município de Glória. Em todos os outros anos e até este domingo (12), ele ocupou a cadeira de secretário em Paulo Afonso, sendo responsável pelo incremento no setor de eventos do município. A Copa Vela, um dos feitos de Janio, consagrou, nacionalmente, o nome da cidade de Paulo Afonso", citou a legisladora, acrescentando ainda que o gestor escreveu seu nome no fomento às práticas esportivas de aventura, promovendo, inclusive, o maior encontro de motociclistas do Nordeste, atraindo milhares de pessoas ao município nos dias de competição.
Janio Soares nasceu exatamente a uma semana da emancipação política de Paulo Afonso, em 21 de julho de 1958. Filho de Cecília e do Tenente Zé da Silva, sobrinho de D. Alda do Cartório, cresceu numa casa sombreada por umbuzeiros e tamarineiros na cidade de Glória, hoje submersa “pelas águas do mesmo rio que lambia as suas costas”. Foi assim que o próprio Janio Soares escreveu a sua biografia para o arquivo da Academia de Letras de Paulo Afonso (ALPA), onde foi recebido festivamente há 4 anos, no dia 12 de dezembro de 2017, em solenidade realizada no Memorial Chesf de Paulo Afonso. “Um amor de pessoa, quanta sensibilidade. A notícia da partida tão estúpida de Janinho pegou seus apaixonados leitores de maneira muito forte. A cada 15 dias, o sábado era iluminado pelas suas crônicas em A Tarde. Janinho deixou um legado incomensurável”, pontuou a socialista.
Janio deixa a esposa Valéria, além de três filhos, parentes, amigos, uma legião de admiradores e muita saudade. “Meu carinho fraterno e o abraço afetuoso a todos aqueles que tiveram a honra da convivência com Janinho, mesmo de longe. Ele era um dos filhos mais queridos de Paulo Afonso”, declarou Fabíola, informando ainda que o prefeito Luiz de Deus decretou luto de três dias, lamentando profundamente a partida do secretário, com quem mantinha um laço de amizade há anos. “Descanse em paz, Janinho!", finalizou a parlamentar, solicitando que seja dado conhecimento desta moção à família de Janio Ferreira Soares, às Prefeituras e Câmaras Municipais de Paulo Afonso e de Glória, à Academia de Letras de Paulo Afonso (ALPA) e ao Jornal A Tarde.
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