A deputada Fabíola Mansur (PSB) inseriu, na ata dos trabalhos da Assembleia Legislativa da Bahia, uma moção de profundo pesar pelo falecimento do advogado e ex-procurador Geral do Estado da Bahia, Antônio Guerra Lima, ocorrido na última quarta-feira,1º de junho de 2022.
“Advogado, ex-procurador do Dnocs e procurador-geral do Estado da Bahia, no governo Waldir Pires, Antônio Guerra Lima, conhecido como Guerrinha, foi uma alma gentil, exemplo de amor e fraternidade, além de um firme defensor do Direito. Perdemos um amigo brilhante, digno, generoso, leal e corajoso. ‘Homem Bom’, como registrou o grande jornalista e escritor baiano, o jovem Claudio Leal, em memorável texto/homenagem que vou deixar transcrito nesta presente moção”, manifestou a socialista.
A parlamentar acrescenta ainda que Antônio Guerra foi um homem de vasto conhecimento, cultura e firmeza de caráter, com uma história de vida “belíssima”, ligada à Cultura, ao Direito e à defesa da Cidadania. Para a legisladora, a Bahia perde um de seus mais brilhantes e corajosos filhos. “Fiel ao nome e sobrenome, fez o bem, sem jamais fugir das melhores batalhas de resistência ao arbítrio, contra a injustiça e o despotismo em sua terra e em defesa da democracia e da plena liberdade de expressão. Resta-nos a memória e a grande honra de ter privado da sua convivência”, destacou.
Integrante da chamada Geração Mapa, sob a liderança do hoje também saudoso Glauber Rocha, que espalhou centelhas criativas por todo o cenário cultural de Salvador, Guerrinha, no ano de se formar em Direito, 1961, para ser um brilhante advogado e procurador federal, enveredou-se pelo jornalismo, numa experiência no extinto Diário de Notícias, sob o comando do mestre Florisvaldo Mattos. A partida de Antônio Guerra Lima, prossegue a deputada, deixa lições de uma vida retilínea, de grandeza, generosidade, altivez, dignidade e honra. Defensor incansável dos direitos e garantias fundamentais, Guerrinha fez história na advocacia, sendo um amigo atento, educado, inteligente, agregador e gentil, enfim, uma cabeça política privilegiada, um conselheiro político diferenciado.
“Desejo a todos os familiares, especialmente sua companheira de toda vida, Iêda Guerra, e amigos que tenham força para atravessar esse momento de dor e tristeza. Fica uma certeza, Guerrinha construiu em vida um legado que inspira a todos nós. Vá em paz, querido Guerrinha, para encontros alegres com outros saudosos companheiros de geração, como Glauber Rocha, Paulo Gil, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Ângelo Roberto, João Carlos Teixeira Gomes (Joca), João Ubaldo Ribeiro e tantos outros ilustres companheiros de vida, declarou a presidente da Comissão de Educação e Cultura da ALBA, que dedicou um especial abraço aos confrades de Guerrinha no Clube Inglês (BBC- Bahia British Club), sua ‘segunda casa’”, como ele gostava de registrar.
Ao finalizar o documento, a deputada Fabíola pediu que a moção seja do conhecimento da família de Antônio de Guerra Lima, da PGE, da OAB-BA, do BBC-BA e do Dnocs e transcreveu o texto do jornalista e escritor Claudio Leal, em memória de Antônio Guerra Lima:
“Morreu um homem, que era inteligente, ilustrado e laborioso; mas que era também um homem bom”. Lembro de Machado de Assis ao pensar na morte do meu amigo Antônio Guerra Lima (1935-2022), o Guerrinha, advogado de imenso talento e homem bom. Machado, seu autor preferido, dizia que muitos poucos mereciam, rigorosamente, a qualificação de “homem bom”. Guerrinha não deixava nenhum amigo à deriva. A qualquer momento viria um breve telefonema seu. Com a voz entrecortada, oferecia seus préstimos – dinheiro, jantar ou algum poema capaz de afastar o pior. A solidariedade extremada fora uma lição vivenciada com Glauber Rocha, seu amigo de adolescência e mito pessoal, que não lhe deixara voltar para a cidade de Antas, no sertão baiano, por não ter como viver em Salvador. Glauber lhe ofereceu uma cama gratuita na pensão de sua mãe, Lúcia Rocha, e só ficou tranquilo quando conquistou para o amigo um emprego no “Diário de Notícias”. Em inúmeras conversas, Guerrinha não mudaria sua definição de Glauber: “O amigo”. A situação de penúria se inverteria décadas mais tarde. Sem dinheiro para regressar à Bahia, Glauber teve a passagem paga por Guerrinha, então um advogado bem-sucedido. E também não se coçava para pagar a conta no restaurante Antônius, no Rio de Janeiro. Glauber sequer olhava o valor da despesa final – “Guerrinha, eu te convidei para jantar, não para pagar. Pague”. Na Avenida Sete, o jovem cineasta lhe ensinou ainda que somos uma ilha de edição. “Enquanto caminhamos, o que vemos?”, perguntou Glauber. “Uma perna, uma cor, uma árvore, uma loja, um rosto, um pedaço do céu. O mundo não é linear”. Com Guerrinha desfrutei de vinhos, tardes azuis, conversas sobre Flaubert e Balzac, embates sobre a forma e o conteúdo, Sartre e Camus. Havia nele a lição do silêncio, de não precisar emitir uma só palavra para transmitir a intensidade de um encontro. Mas, em muitos momentos, ele impunha a trilha sonora do ambiente. Sem hierarquias, em volume alto, Chopin, Mozart, Ella Fitzgerald ou Cartola. Não farei agora queixumes. Numa vida mais ou menos breve, há enorme beleza no fato de ter sido seu amigo por tanto tempo”.
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