Nesta quarta-feira (27), centenas de mulheres negras baianas tomaram o Auditório Jornalista Jorge Calmon, da Assembleia Legislativa, para comemorar o Julho das Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas: representação e representatividade, evento promovido pela Comissão dos Direitos da Mulher.
Na abertura da audiência, a presidente do colegiado, Olívia Santana (PCdoB), falou sobre a importância do debate em relação à representação e representatividade política da mulher negra no Brasil, da inclusão de gênero e raça e da expectativa para 2022. A situação de sub-representatividade foi apontada pela parlamentar, exemplificando a desproporção na participação da mulher na Câmara dos Deputados. “Entre os 39 deputados federais eleitos em 2018, somente três são mulheres. Este é um ano eleitoral decisivo para a democracia brasileira, em que se coloca mais uma vez em cheque a necessidade da participação das mulheres negras nos espaços de poder político e de representação”, alertou.
Sobre a comemoração do Dia das Mulheres Negras, Latino Americanas e Caribenhas, Olívia ressaltou o simbolismo da data para chamar a atenção para o racismo estrutural, o machismo e o patriarcado. Também sobre o efeito das referidas opressões de classe sobre a vida das mulheres negras, que vivem em situação de extrema desigualdade em relação aos outros segmentos da sociedade, tendo como um dos resultados, os maiores indicadores de feminicídio no Brasil, em que 64% das vítimas são mulheres negras.
“Nós não podemos continuar discutindo o racismo como se fosse um elemento à margem, como se fosse um elemento secundário. Essa sociedade precisa incorporar a luta antirracista na principalidade de um projeto nacional”, conclamou.
PROTAGONISMO
Palestrante do ato, a escritora e doutora em comunicação, Rosane Borges, destacou a necessidade do protagonismo das mulheres negras na construção de um país democrático, plural e igualitário. “Nós continuamos muito pouco nos espaços institucionais na política institucionalizada e eu acho que esse é um debate fundamental, porque nos leva a pensar a reversão desse quadro a partir de políticas públicas, como a adoção de cotas e considerando a importância da representatividade na política partidária”, propugnou.
Rosane apontou o déficit democrático no país em que mulheres negras só são reconhecidas como destinatárias de políticas públicas, e não como formuladoras, desenhadoras e executoras das políticas. “É preciso que a política seja pensada e formulada por mulheres pretas, brancas, trans, os povos originários. Enquanto não tiver mulheres negras, não haverá democracia, sequer haverá sociedade que possa se chamar civilizada ou qualquer outra coisa”, alertou.
Presidente nacional da Unegro, Ângela Guimarães destacou a importância da ocupação feminina nas tribunas trazendo nas vozes negras as demandas e as representações da maioria da população, como portadoras de um projeto global, intenso de transformação na sociedade. “Porque nós vivemos numa estrutura que se utiliza do racismo e do patriarcado para produzir essas desigualdades, de classe, gênero e raça e não podemos manter essas estruturas que nos oprimem, que nos coloca sempre no subsolo da pirâmide social”, disse.
A deputada petista Neusa Cadore lembrou o processo de instituição do Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, em 1992, que celebra a memória de Tereza de Benguela, líder quilombola que marcou a história do Brasil. “É muito importante celebrar, é muito importante nos aquilombar sempre pra gente firmar a força da mulher, pra gente se fortalecer umas com as outras, alimentar essa sororidade”.
Também sobre a comemoração, a secretária estadual de Promoção da Igualdade Racial, Fabya Reis, reforçou a necessidade da luta das mulheres negras contra o racismo estrutural, contra o machismo, pautando os seus direitos. “Portanto, celebrar e visibilizar essa agenda de trabalho que está incorporada pelas assembleias legislativas e pelo Poder Executivo, falar da representatividade, portanto, no ano eleitoral, eleger bancadas femininas, bancadas de mulheres negras é uma agenda fundamental”, declarou.
HOMENAGENS
No final da audiência, foram entregues placas de homenagem a várias mulheres negras protagonistas que lutaram e lutam contra o racismo na Bahia e no Brasil. Foram elas a ialorixá do Ilê Axé Ewá Olodumare Márcia Lima, Iyá Márcia d’Ogun; a professora, escritora e empresária, Bárbara Carine; a professora, bailarina afro, percussionista da banda Negras Perfumadas e conselheira de Cultura de Itabuna, Tâmela França; a ouvidora da Defensoria Pública do Estado da Bahia, Sirlene Assis; a vereadora e vice-presidente da Câmara Municipal de Lauro de Freitas, Luciana Tavares; e a socióloga, professora e feminista, Vilma Reis.
A homenageada especial foi Alaíde do Feijão (em memória), que, nos anos 80, depois de herdar o tabuleiro da sua mãe, Maria das Neves, passou a conquistar uma clientela cada vez maior, entre famosos, anônimos, integrantes de blocos de samba e blocos afro, políticos, artistas e jornalistas. “Uma mulher retada, dona de uma força incrível, uma mulher preta militante, antirracista, que teve um papel importantíssimo no movimento social e na luta antirracista. Deixa um legado incrível, potente, de muita luta e resistência, um marco histórico”, reconheceu Olívia Santana.
Além da presidente do colegiado, que coordenou o evento, a mesa foi composta pelas deputadas Alice Portugal (PCdoB) e Neusa Cadore (PT); as vereadoras Marta Rodrigues e Luciana Tavares; as secretárias estaduais de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) e de Políticas para as Mulheres (SPM), Fabya Reis e Julieta Palmeira, respectivamente; a procuradora de Justiça do Ministério Público da Bahia (MP-BA), Márcia Virgens; a presidente nacional da União de Negros pela Igualdade, Ângela Guimarães; a coordenadora do Forum Nacional de Mulheres Negras-BA, Joana Evangelista Conceição da Silva; e a presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, Rosa de Souza.
O evento foi encerrado ao som dos tambores e da voz das integrantes da banda de mulheres negras baianas Yayá Muxima.
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