A entrega da Comenda 2 de Julho ao artista Chocolate da Bahia foi uma festa da cultura popular e do samba. Ele trouxe ao plenário da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), na tarde desta quinta-feira (28), um pouco do gracejo, espontaneidade e malemolência presentes em suas composições. Cercado de amigos, colegas da música e da cultura, familiares e admiradores, o compositor de 78 anos descreveu que, nem as multidões que outrora lotaram seus shows, trouxe ‘o exagero de felicidade’ que sentia no momento. A outorga foi uma iniciativa do então deputado Pastor Sargento Isidório (Avante) resgatada pelo deputado Robinson Almeida (PT), que presidiu a sessão especial na Casa.
Para o petista, a honraria é uma justa homenagem a Raimundo Nonato da Cruz, nome de batismo de Chocolate da Bahia, a quem se referiu como uma ‘entidade’, filho de João Cupertino da Cruz, sapateiro de ofício e comunista de profissão e de Odete Guimarães da Cruz, costureira, lavadeira e rezadeira. Em seu discurso, que teve a contribuição do jornalista, escritor e ex-deputado Emiliano José, Robinson Almeida fez um breve apanhado da trajetória do homenageado. Ao citar alguma canção do autor no texto, o momento era enriquecido pela execução da mesma por músicos presentes no plenário, entre eles o filho de Chocolate da Bahia, Tiago.
Foi assim, por exemplo, ao trazer sua iniciação artística na rampa e nas rodas de samba do Mercado Modelo, quando o jovem Chocolate da Bahia ainda ensaiava seus primeiros sambas, e sua convivência com Camafeu de Oxóssi e capoeiristas como os mestres Bimba, Pastinha, Canjinquinha, Caiçara: “Me dá birinaite que eu já tô quase doidão/ me dá birinaite com batida de limão”. Outras canções foram reportadas ao enumerar nomes da música que são parceiros ou gravaram suas composições, como Martinho da Vila – que gravou, dele e de Nelson Rufino, o samba ‘Não Rolou, Mas vai Rolar’; Luiz Caldas – parceiro no sucesso ‘Haja Amor’; e Chiclete com Banana – que popularizou ‘Menina do Cateretê, assinada por ele, Bell Marques e Paulinho Camafeu.
Em uma passagem triste, o deputado relatou que, ao receber a notícia da morte de seu pai, aos 11 anos, Chocolate passou a trabalhar e viver mais pelas ruas e ladeiras de Salvador, dormindo nos carros velhos que ficavam no centro da cidade. O legislador disse ainda que, dessa fase que vem a intimidade do homenageado com o samba, a necessidade de expressar as experiências percebidas no cotidiano de vendedor, músico e poeta. A sessão foi abrilhantada com depoimentos, lidos ou gravados em vídeo, de personalidades da cultura e da música, como os compositores Gilberto Gil, Edil Pacheco, Walter Queiroz e Paulinho Camafeu, que faleceu o ano passado, além do poeta José Carlos Capinam. O de Jorge Amado foi lido pelo próprio Chocolate da Bahia, em um vídeo onde apareceu editado com a foto do escritor.
A faceta de compositor de jingles também foi destacada na sessão, lembrando especialmente o que fez para a Cesta do Povo e a do Metrô de Salvador. Também fizeram uso da palavra o agitador cultural Clarindo Silva e a filha do homenageado, a historiadora Alessandra Carvalho da Cruz. Fizeram parte da mesa os cantores e compositores Tonho Matéria, Gerônimo, Walmir Lima, Nelson Rufino; o presidente do Olodum, João Jorge; a diretora do Centro de Culturas Populares e Identitárias da Secretaria estadual de Cultura, Verônica Nonato; o diretor da W4 Comunicação, Robson Wagner; além da irmã e sobrinho do homenageado, Ana Guerreiro e Valter Cruz.
REDES SOCIAIS