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ALBA concede Comenda 2 de Julho ao ex-deputado Celso Dourado

Publicado em: 11/08/2022 18:24
Editoria: Notícia

A concorrida sessão especial foi marcada pela emoção
Foto: JulianaAndrade/AgênciaALBA

O ex-deputado constituinte Celso Loula Dourado foi agraciado nesta quinta-feira (11) com a Comenda 2 de Julho, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa da Bahia, outorgada àqueles com relevantes serviços prestados ao Estado. A medalha foi entregue em sessão especial comandada pelo deputado Adolfo Menezes (PSD), presidente da Casa, e proposta pelo deputado Jacó Lula da Silva (PT), que revelou “orgulho, honra e alegria” em reverenciar “a figura íntegra e iluminada do pai, educador, professor, agricultor, reverendo e político”.

Para o petista, a honraria é um reconhecimento a tudo que o ex-deputado representa, “que a sua vida representa para a nossa gente, mas também tem um sentido de reparação”. Este homem, afirmou, “tem uma coragem extraordinária, transformou o Colégio 2 de Julho numa trincheira pela democracia, enfrentou o Exército e a ditadura”. Jacó discorreu sobre a vida de Celso Dourado que, aos 91 anos, “é um exemplo de luta para nós que podemos conviver no seu tempo”, e ressaltou o papel que ele exerceu na “defesa intransigente da nossa democracia, tão nova e tão achincalhada. Enfrentou o regime militar no período mais difícil, lutou pela redemocratização do país, protegeu lideranças de esquerda”.

Não suporto ditadura, nem de direita, nem de esquerda”, declarou o ex-deputado, agradecido pelo reconhecimento conferido com a concessão da Comenda e pela oportunidade de rever ex-alunos, colegas, legisladores. A todos, Celso Dourado endereçou seu afeto. Ao rememorar a história de vida, revelou memória prodigiosa e garantiu que sempre pugnou pela democracia.

Ele também lembrou do golpe militar de 1964, que o encontrou como presidente da Câmara Municipal de Campo Formoso, e do Inquérito Policial Militar (IPM) a que teve que responder, tendo à frente o coronel Moacir Pinto Coelho. Aos 91 anos, Celso Dourado rogou a Deus que lhe dê um tempo a mais. “Gosto da vida”, declarou.

TRAJETÓRIA

Ao discursar na sessão especial de outorga da Comenda, que teve o protocolo alterado pelo presidente Adolfo Menezes para permitir a homenagem de diversos oradores, dentre eles o presidente do Grupo Tortura Nunca, Joviniano Neto, e Eliana Rolemberg, socióloga que integrou por 30 anos a equipe de assessoria da Coordenadoria Ecumênica de Serviço, o deputado Jacó Lula da Silva pontuou também momentos que considera marcantes na vida “desse grande baiano”, como a ida para São Paulo aos 13 anos de idade, onde morou sozinho por 12 anos, “estudando e trabalhando para o próprio sustento”. No Educandário José Manoel da Conceição (SP), e mais tarde nos Seminários Presbiterianos de Campinas (SP) e no de Princeton (Estados Unidos), “fortaleceu e solidificou o compromisso com a educação e a fé cristã. Com o seu conhecimento e eloquência, Dr. Celso nos ensina que a Bíblia descreve todas as realidades humanas, daquilo que é mais sublime até a mais baixa degradação”, disse Jacó.

De volta à Bahia, prosseguiu o parlamentar, ele irá se dividir em diversas atividades, como ser diretor do Colégio Augusto Galvão, em Campo Formoso, unidade escolar elogiada como referência na Bahia pelo presidente da ALBA. Adolfo Menezes, ao analisar a atual situação da educação brasileira, lançou críticas sobre o Congresso Nacional, a quem atribuiu a responsabilidade, por exemplo, de transformar os cursos de Medicina em “padarias”.

No seu retorno, Celso Dourado também exerceu a função de pastor e líder religioso da Igreja Presbiteriana do Brasil, agricultor e produtor rural, contou Jacó, lembrando a eleição para vereador em Campo Formoso pelo PTB em 1962 e a atuação à frente do Colégio 2 de Julho, em Salvador. Celso Dourado, continuou Jacó, é reconhecido “como um singular educador, evangélico progressista, que marcou a vida e a formação de muitos pela grande capacidade com que exercia suas funções, voltadas a despertar e desenvolver as vocações e potenciais dos alunos, professores e funcionários num ambiente caracterizado pela dedicação, disciplina e entusiasmo, pelo aprendizado dinâmico e autêntico e pela convivência fraterna e plural”.

ANISTIA

O autor da homenagem relembrou que o período em que o Reverendo dirigiu o tradicional colégio “coincide com o horror e o auge da ditadura militar, com a promulgação do AI-5, censurando os jovens, os comportamentos, a cultura e restringindo as liberdades individuais e políticas no Brasil. A escola, como um contraponto a esse ambiente hostil, funcionou como espaço de resistência e proteção, onde os perseguidos e diferentes se faziam aceitos”.

Celso Dourado abriu as portas do 2 de Julho para a realização das comemorações do 1º de maio, Dia do Trabalhador e do Congresso Nacional da Anistia em 1979, ocasião em que muitos falariam em público pela primeira vez após a volta do exílio. Um dos oradores foi o comunista Luís Carlos Prestes. Jacó também lembrou que Celso Dourado “exercia a sua influência e militância” ao participar de entidades como a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), duramente perseguida pelo regime militar, figurando como o único fundador vivo dessa “relevante instituição”. Também presidiu a Condepaz e teve atuação efetiva no grupo Tortura Nunca Mais (Núcleo Bahia).

O deputado continuou relembrando a história do homenageado que, “mesmo sofrendo fortes ameaças”, recebia em sua casa perseguidos políticos, posteriormente dados como mortos ou desaparecidos pela ditadura, dentre eles o líder católico conhecido como Jorge Carola e o deputado cassado Paulo Wright, da Igreja Presbiteriana do Brasil. “Essa atuação foi exercida, muitas vezes, em conjunto com outras lideranças religiosas, a exemplo de Dom Timóteo Amoroso e os demais sacerdotes do Mosteiro de São Bento”, disse Jacó. Celso Dourado elegeu-se deputado federal em 1986, “tendo destacada atuação na Assembleia Nacional Constituinte”. Ao final do mandato, voltou para Salvador e, mais tarde, regressou à cidade de Irecê, onde assumiu o cargo de secretário municipal de Educação e retomou as atividades de agricultor.

Jacó encerrou seu discurso de saudação ao homenageado declarando que “estamos convencidos, neste 11 de agosto de 2022, de que a Comenda 2 de Julho está sendo entregue a um lutador, alguém que conjuga a rara sabedoria ao poder da palavra e da ação, que muito nos orgulha e representa ao falar de liberdade e democracia, que conhece o sofrimento do povo e demonstra indignação com as injustiças sociais que nos rodeiam. Essa vocação tão preciosa e necessária fazemos questão de louvar. Parabéns, Dr. Celso, novo comendador da Bahia!”.










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