Estudantes do ensino médio de Salvador, dos colégios estaduais Ministro Aliomar Baleeiro (CEMAB), do bairro de Pernambués, e Professor Nelson Barros, do bairro de Cajazeiras X, acompanharam, com atenção, uma explanação sobre a data magna da Bahia, o 2 de Julho, na manhã desta terça-feira (4), no Auditório Jornalista Jorge Calmon, da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). A palestra “As Festas de Caboclo e Cabocla: a Bahia na Consolidação da Independência da Bahia”, ministrada pelo professor titular de História da Universidade Federal da Bahia, Milton Araújo Moura, inaugurou uma série de atividades e publicações da ALBA em comemoração ao bicentenário da Independência da Bahia.
O vice-presidente da ALBA, deputado Zé Raimundo Fontes (PT), representou, no evento, o presidente Adolfo Menezes, responsável por criar o grupo de trabalho na Casa – com servidores dos setores de Pesquisa, Memorial, Assessoria de Comunicação, entre outros – para realizar pesquisas e estudos voltados à efeméride. Fontes parabenizou todos os setores envolvidos na iniciativa, ressaltando a importância do protagonismo popular das lutas, na Bahia, em favor da libertação do Brasil das Cortes Portuguesas, para valorização da nossa história, cultura e identidade, e contra o racismo e o preconceito.
A importância de uma cultura da preservação da história também foi abordada por Marcelino Galo, superintendente de Assuntos Parlamentares da Casa, que exaltou as batalhas do povo baiano como fundamental para nossa memória. Geraldo Mascarenhas destacou que a proposta de celebração do bicentenário nasceu do núcleo dos funcionários do Departamento de Pesquisa, do qual é o coordenador na ALBA, rendendo uma homenagem especial aos historiadores – entre eles Daniel Silva, analista de pesquisa do setor que integrava a mesa da palestra – à sua gerente Arlete Neiva, e ao chefe da Ascom, jornalista Paulo Bina, responsável pela edição das publicações temáticas.
PALESTRA
Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Ufba, o professor Milton Moura desenvolve pesquisas sobre histórias de festas e tem estudos sobre as festas do Caboclo e da Cabocla no contexto da luta de Independência. E foi com esses ícones, para ele apropriados pelo imaginário do conjunto do povo baiano como representantes das lutas e do ideal de liberdade, que iniciou sua saudação, pedindo licença “aos ancestrais, não somente no sentido de ‘os donos da terra’, mas aqueles cujas memórias e inspiração podem ajudar a nos conduzir para um futuro melhor”.
Milton Moura fez uma contextualização sobre os movimentos emancipatórios nas colônias, a crise do Império Português, que chegou a administrar 72 portos, passando pela solenidade da declaração da Independência do Brasil por Dom Pedro I, em 7 de setembro de 1822. “À semelhança do México, o Brasil ficaria independente com um monarca português, filho do monarca de Portugal”, explicou o professor, mostrando os conflitos que se seguiram em território baiano, a partir da organização dos setores populares. O professor reforçou que, ao contrário da declaração no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, a consolidação se deu em meses de luta para expulsão dos portugueses na Bahia, relatando, a seguir, alguns combates, como a Batalha do Funil, do Cabrito e de Pirajá.
“A independência que era daquela região só se consolidou, em termos macrogeográficos, quando os portugueses deixaram Salvador, na madrugada do dia 2 de julho de 1823”, reforçou o professor, lembrando que as forças lusitanas, cerca de 11 mil soldados, foram vencidas, encurraladas em Salvador, sem suprimentos, alimentos e material hospitalar. “Foram quatro tentativas de se tomar a ilha”, anotou o palestrante, incluindo investida com 30 navios. Além disso, enumerou o reforço de voluntários, exército de ‘farroupilhos e extropiados’, vindos até de outros estados e do interior, para lutar, como os vaqueiros dos Encourados de Pedrão.
O pesquisador falou sobre a participação das mulheres e destacou, além das figuras de Joana Angélica e Maria Quitéria, a heroína de Itaparica Maria Felipa, mulher negra e pobre, cuja descoberta recente pode comprovar sua existência – o registro de uma queixa-crime contra mulher de mesmo nome, absolvida em júri popular na cidade de Nazaré. “Quando proclamamos o heroísmo de Maria Quitéria ou Maria Felipa talvez estejamos proclamando o heroísmo de muitas mulheres anônimas que participaram dos combates”, disse, sendo aplaudido de pé, no final da explanação.
A tradição cultural da Batalha de Itaparica, ocorrida em 7 de janeiro de 1823, esteve representada na palestra pelo presidente da Associação Cultural de Índios Guaranis, Emanuel Pita, e o caboclo mestre do grupo, Ildo Peixoto, de 72 anos, que integra o cortejo do grupo desde os 12 anos de idade. “Sabemos a importância de Itaparica nesse processo de consolidação da Independência do Brasil. Somos a bravura do nosso povo, naquilo que os caboclos representam”, disse Pita. Ao final da palestra, de pé, todos entoaram o Hino ao Dois de Julho, que, entre as estrofes, repete como mantra “Com tiranos não combinam / Brasileiros, brasileiros corações!”.
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