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Cientista Gustavo Cabral recebe Comenda 2 de Julho na Assembleia

Publicado em: 05/05/2022 20:18
Editoria: Notícia

O que ocorreu ontem à tarde no plenário da Assembleia Legislativa poderia ser contado de diversas maneiras. Algo que rendesse uma manchete do tipo “jovem cientista baiano recebe Comenda 2 de Julho por trabalho em imunologia”. Outro ponto de vista poderia destacar o pronunciamento do homenageado, Gustavo Cabral, 39 anos, que falou de fúria com voz suave em meio a um discurso político pedindo mudanças. Tudo verdade, mas é necessário lembrar aqui de dizer que a honraria foi proposta pelo deputado Bobô (PCdoB) com aprovação unânime de seus pares.


Mas quem é esse nome apresentado por Bobô? O imunologista se tornou célebre no meio científico internacional ao estampar a capa da revista especializada Vaccine, em 2019, por estar desenvolvendo uma vacina para o zika vírus. Conhecido mesmo ele se tornou após diversas entrevistas em que trouxe um pouco de luz na cruzada contra a Covid-19. Era e ainda é importante lembrar ao povo que ciência é uma coisa, opinião é outra e misturar as duas deu foi ruim. Além disso, é um dos pesquisadores engajados no Incor para produzir uma vacina contra esse flagelo atual.


HORA DE LUTAR



Tem duas coisas que precisam ser lembradas: a incrível história de vida de um rapaz nascido no povoado de Creguenhem, no município de Tucano, e o discurso, em que Gustavo afirmou que “entramos em um período das trevas desde 2016” e que “em 2022 precisamos voltar a sonhar, é hora de lutar!”. Mas nem tudo foi política em sua fala. Mandou da tribuna um “eu te amo” para a noiva, Jaqueline Dinis, e mostrou carinhosamente o quanto cada um que compunha a mesa lhe era especial. “Uma das coisas que mais gosto é agradecer e vou fazer isso a vida inteira”, disse, no mesmo tom de voz tranquila.


Além de agradecer, ele gosta mesmo é de defender a ciência: “a gente não vai ter um país competitivo sem ciência e tecnologia”, afirmou, ressaltando que a verdadeira revolução se dá pela educação. Ele mesmo se classificou como fruto da atenção especial dada à universidade entre 2004 e 2016 e fez uma alusão especial à representatividade da Uneb para o interior. “Não poderia estudar em Salvador”, confessou, acrescentando que se mantinha com R$30 semanais, enquanto estudava no campus de Senhor do Bonfim. O imunologista criticou ainda o excesso de atenção que se dá ao “mercado”. Segundo ele, o capital especulativo só cria pessoas ricas e que o livre mercado é o discurso da meritocracia empresarial ou dos países que alcançaram o desenvolvimento. “Raros são os países em que há livre mercado”, disse, ressaltando que esse discurso só é adotado quando interessa.

TRAJETÓRIA


Para contar a história do menino sertanejo que se tornou comendador é preciso catar aqui e ali o que falaram Bobô e o próprio Gustavo. “Era assim que eu me sentia e esse é o maior problema, quando acreditamos que somos insignificantes”, afirmou. “Mas sempre que me sentia assim vinha uma fúria imensa dentro de mim que rebatia com a máxima ‘você vai ser um cara espetacular’”.


Filho do agente de saúde Washington Miranda e da ajudante de escola Maria das Graças, já trabalhava aos 8 anos de idade. Primeiro na lavoura, depois vendendo geladinho e frutas na feira. Aos 15 anos foi para Euclides da Cunha trabalhar em um açougue e chegou a ter duas bancas de carne. As dificuldades eram grandes que se refletiam nos estudos. Bateu na trave duas vezes na 8ª Série e só concluiu o ensino médio aos 21 anos. Mas sempre a fúria foi lhe empurrando.



“Com a venda das barracas de carne e a ajuda dos pais, pagou o 3º ano no Instituto Social de Tucano”, contou o deputado, lembrando que “nesse mesmo ano, passou no vestibular e foi para Senhor do Bonfim, onde cursou Ciências Biológicas na Uneb e morou em uma república de estudantes. Ali começaram as transformações e as revoluções que ele profetizou, começando a fazer pesquisa e ciência”.



É agora que a gente lembra que Gustavo disse que aprendeu muitas coisas fora da Uneb, mas que a sua visão de mundo, que exige que investimento em ciência e tecnologia seja uma questão de Estado e não de governo, foi forjada nas salas daquele campus. “O caminho para uma das maiores revoluções na vida das pessoas que não têm condições de vida muito boa é invadir os espaços universitários”, foi uma frase dita por Bobô, mas a ideia contida nela tanto o novo comendador quanto o deputado disseram até mais de uma vez.



Após a graduação na Uneb, uma bolsa de pesquisa o ajudou a fazer mestrado em imunologia, na Ufba. Em seguida, fez doutorado na USP e em Portugal, além de pós-doutorados em Oxford, na Inglaterra, e em Berna, na Suíça, local em que estudou imunologia aplicada à vacina. Era nessa situação em que se encontrava quando Dilma Rousseff foi deposta. “Canalizei tudo isso para lutar por algo que vá além do eu, a gente tem que fazer valer à pena nossa passagem aqui na terra”, disse, considerando que seria fácil continuar na Suíça, em vez de voltar ao Brasil. Depois de toda essa bagagem internacional, ele voltou ao Brasil para trabalhar no campo da vacina (Chikungunya, Zika vírus e Estreptococos), no Instituto do Coração (Incor), da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.



A sessão especial foi presidida pelo presidente Adolfo Menezes (PSD), que chamou os pais e a noiva para fazer a entrega do diploma e da comenda juntamente com Bobô. Antes disso, a prima Lorena entregou um buquê de flores. A mesa de honra foi composta, além dos citados, pelo diretor da Escola Superior da Defensoria Pública da Bahia (Esdep), defensor Clériston Cavalcante, também filho do município de Tucano; o vice-prefeito daquela cidade, Robson Ferreira; Margareth Passos, representante da Secretaria da Educação; o professor da Uneb Artur Dias Lima, primeiro orientador de Gustavo; a diretora do campus da Uneb Senhor do Bonfim, Suzanna Alice Almeida; e o ex-reitor da Uneb, José Brites.

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